domingo, setembro 16, 2007

Rasgos de sangue


Voltei de novo ao espelho e vi a sombra do passado.

Se insisto em considerá-lo História, o presente teima em reacender as cicatrizes provocadas pelo incêndio suicida. Nada derruba tanto um ser quanto um espelho quebrado, sem imagem, vazio de crenças e esperança. Pelo chão pedaços de vidro quebrados, ainda ensanguentados, sorriem com ironia. São restos de saudade que ficaram, angústias afogadas, pseudo-amizades acolhidas em mimos, raízes nulas de autencidade. Os frutos obtidos são tudo menos paixão, luz e encantamento. Já não existe espelho, nem tempo, nem vida reflectida. O sonho morreu. Ficaram as pegadas de dor, marcas de sangue escuro, solitárias, abandonadas, agora indefinidas, já secas, esmagadas contra o chão pisado e sujo.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Banco de areia

HOJE...


perdi um dia de sorrisos de vida;
perdi um rio de lágrima sofrida;
perdi um dia de confiança garantida;
perdi uma paixão muito sentida;
perdi a palavra de amor sempre recebida;
perdi a alegria da alma criativa;
perdi o sol de timidez esbatida;
perdi a febre do sangue, comprometida:
perdi o tempo na pulsação atrevida.

HOJE...

ganhei alguma da auto-estima já esquecida;
ganhei a consciência do teatro que se diz mundano;
ganhei uma maturidade envaidecida;
ganhei a cura pela experiência vivida;

ganhei a honra na dignidade defendida;
ganhei um dia de intensa ferida, já esquecida.

HOJE...

Embati num banco de areia. Afundei.

Tudo isto perdi e ganhei.

Ficaram estrias profundas no coração,magro de decepção e vazio de solidão.

Foi declarado o meu naufrágio de sonhos.

Nem a melhor marca de sedativos
obteria esta intensidade de dicotomias.
Deveria haver o seu genérico à venda nas Farmácias.

(Resultados garantidos.)

sábado, agosto 25, 2007

Mal-me-quer, bem-me-quer, muito? pouco? ou nada?

Aproximou-se, tirando os óculos de sol lentamente do rosto. Li o seu pensamento explícito. Receei que também o meu fosse assim tão evidente. Trazia uma sede de desejo escrita nos olhos e logo que tocou no meu ombro, senti toda uma avalanche de fantasias desnudar-se, sem timidez alguma. Agarrou-me pela cintura e percebi que não havia modo de fugir àquele chamamento quase animalesco, e estranhamento tão doce. Não consegui olhá-lo nos olhos. O seu coração saltava do peito, batendo em sentido contrário ao meu. Os olhares de ciúme, curiosidade ou até de crítica de quem passava, por vezes, empurrando-nos, mergulhavam como bombas sobre nós, tentando alvejar o prazer físico, quase mágico, ali exposto. O calor dos nosso corpos fundia-se ali mesmo, publicamente, louco, insaciável e poderoso. Senti que me observava da forma mais indiscreta, com os olhos colados no meu decote, acariciando a minha pele, presa ao seu corpo como um iman. Incomodada, senti um prazer louco, intenso, ao ver o quanto o meu bronzeado lhe agradava. Estava colado a mim. Diria eu, que, naquele momento, era eu o único mundo que ele via. Iludo-me? Muito provavelmente "talvez". A vida tem destes enigmas, felizmente.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Cetim azul


Há muito que esperava por ti. Vesti a camisola de cetim e senti o meu corpo todo vibrar com o toque do tecido maroto. Desenhava cada contorno do meu corpo, adivinhando-o, escorregadio, num azul brilhante.

Fiquei pensando no sorriso lindo que tens, perdida e deslumbrada. Escutei a palavra sempre certa que encontras. Senti o toque quente das tuas mãos. O pensamento foi deambulando pelo erotismo de quem veste a pele dos trinta. Tudo mudou e continua mudando, de forma abismal, ao compasso do tempo. A surpresa é constante. As descobertas são agradavelmente inesperadas. A idade não cansa, não pesa, não tortura, não deprime. A idade enaltece a maturidade do prazer intenso da mente e do corpo...

O sofá vermelho, convidativo, sorria, escondendo os pensamentos mais ousados. A pele brilhava sob o candeeiro de luz ténue, debruçado sobre mim. Estava quente. Todo o meu corpo parecia ferver. O creme hidratante atrevido, derretia, perfumando cada pedacinho de pele encontrado. Os poros morenos suavizados reclamavam-te, sentindo ainda o toque mágico das ondas que me tinham envolvido durante a tarde, na praia... O erotismo exalava das velas de aromas silvestres que ardiam, brincando no chão da sala. A alça da camisola de cetim deslizou pelo ombro e deixou a descoberto o bronzeado do sol.

Estava ali, distante do mundo, esperando por ti, sorrindo e acariciando o creme que derretia suavemente pelo ombro descoberto. Tudo parecia ter ganho vida naquele meu espaço. A chama das velas dançava com sensualidade esboçando sombras na parede. O cetim escorregava, teimando em desvendar a nudez macia.

Quando acordei, o sol entrava pela janela, me acarinhando. A doce luz despertou-me delicadamente. O pescoço dorido relembrou-me que adormecera, de novo, no sofá, pensando em ti.

domingo, agosto 19, 2007

XÔ!!!

Nada como uma máquina destas digitais para apanhar o que não deve...Mas não se esqueçam: recorram à alternativa mais antiga do mundo. Não há paparazzi que o tolere. Estraguem com a foto.

quarta-feira, junho 27, 2007

Anjo

Deparo-me com uma paixão eterna pela vida, por mais barreiras que encontre tapando o sol que, todos os dias, me envia um sorriso maroto, num "flirt" constante.
Não há nuvem obesa que o impeça.
As persianas do optimismo não se fecham nunca por completo.
Um raio de esperança permanece, ousado e teimoso, me aquecendo o coração.
Um fio de brisa fresca trespassa o escuro.
Não há tempestade que me derrube definitivamente. Atrás de uma lágrima vem um sorriso inevitável.
Quem sabe nao terei também um "anjo-da-guarda" bem perto de mim, oculto, mas sempre presente e atento (?).
Ouso afirmar que a sua existência é quase perceptível, independentemente do nível de credibilidade que esta afirmação possa suscitar.
Para quem não viu, fica a sugestão, já clássica, do filme: "The city of Angels" com Nicolas Cage. Marca qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade. Confesso que me fez chorar, sorrir, reflectir, meditar, questionar, duvidar e acreditar. Na altura, aconchegou-me a esperança de continuar mimada e apaixonada pela vida. Toda essa emoção positiva tão completa, inesperadamente despertada, ainda hoje me embala nas noites que prometem ser mal dormidas e me acorda docemente, todos os dias.

segunda-feira, junho 18, 2007

Carlota


Esta é a minha menina. Nasceu em Outubro, segundo as previsões médicas. Era uma cadelinha abandonada. Quando a fui buscar era pequenina e estava muito doente. Os outros animais, na sua jaula de precárias condições, foram-me sugeridos como objectos. Olhei para a Carlota. Lembrava-me um pouco a Janette, mas outros cães que lá insistiam em chamar-me, enchendo o ar de latidos quase desesperados, eram muito mais parecidos com a minha doce Janette. Olhei para a Carlota e solicitei que abrissem a sua jaula. O nome que lhe tinha sido atribuído era deveras estranho. Nem vale a pena referi-lo. Dá vontade de rir. Sei que Carlota também suscita um sorrisinho, por ser nome de pessoa. Na minha opinião, qualquer animal merece um nome digno. Um nome de pessoa.


Quando a vi, estava junto da sua mãe e irmã que tinha o pêlo completamente pretinho. A mãe, adoentada, com pneumonia (conforme me informaram posteriormente) e a caminho da esgana, como é usual nestes sítios, onde os surtos se espalham num piscar de olhos, exibia a mistura das cores do pêlo das filhotas. Quando peguei na Carlota, estava emocionada. Não consegui controlar-me e chorei. As saudades da Janette eram tantas e cada vez são mais. Aquela lacuna ficou para sempre. Na altura, tinham passado duas semanas após o sucedido com a minha menina. E eu, nessa altura, tinha jurado não me afeiçoar mais a nenhum animal de estimação. Impõe muita dedicação, responsabilidade, tratamentos e cuidados e, na sua eventual perda, o mundo desaba. Sofremos muito. Esse tipo de dor não se perde nunca.


Naquele momento, quando olhei para a Carlota, encantei-me de imediato pela cadelinha frágil e pequenina que se aconchegava nos meus mimos e me lambia a cara toda, de forma descontrolada. O seu pêlo era macio e lindo. Mesmo trémula, assustada, não parava de me lamber a cara.


Sentia o pulsar do seu coração pequenino nas minhas mãos. Era tão pequenina que podia segurá-la apenas numa mão. Espirrava frequentemente, aparentando estar doente, por isso insisti na consulta médica imediata, o que não ocorreu. Carlota foi assim colocada nos meus braços: doente e debilitada. Não consegui separar-me dela. Carlota escolhera-me a mim, nitidamente. Um dia a mais naquele lugar e a pequenina estaria provavelmente condenada a um destino muito doloroso. Seguiram-se internamentos, tratamentos, ansiedade e muitas lágrimas, na eminente perda de mais uma cadelinha, após uma semana de adopção, ao serem escutadas as palavras inseguras de alguns médicos que não poderiam ter a certeza se ela progrediria para a "esgana" ou não. O seu estado de saúde era incerto e, progressivamente, cada vez mais debilitado. Lutei por ela. Lutei, procurando os melhores veterinários e internamentos, tentando dar-lhe tudo o que pudesse salvá-la e essencialmente, acarinhando-a, adormecendo-a nos meus braços e cobrindo-a de mimos.
Num dos últimos internamentos, quando a fui buscar, o Dr. colocou-a nos meus braços e ela, diante de alguns familiares que me acompanharam e de algumas pessoas que estavam ali com os seus animais, ao reconhecer-me, lambeu-me de novo a cara toda, com a cauda numa agitação veloz e descontrolada, visivelmente feliz em ver-me. No espaço em que estava, toda a gente parou, inclusivé o veterinário da Carlota, surpreendido pela alegria da pequenina em rever-me, mesmo estando comigo há tão pouco tempo. Lembro-me que um dos rapazes que lá estava disse-me a sorrir, ao ver a minha atrapalhação: "Certamente, nunca levou tantos beijos assim". Eram "lambidelas", sublinhe-se. Deu-me imensa vontade de rir. A minha alegria era tamanha e a chuva de beijos da Carlota no meu rosto prolongava-se e intensificava-se, ignorando tudo e todos.


Já tem 8 meses, a minha bébé... Os dentinhos de leite que caiam da forma mais inesperada, foram quase todos substituídos pela dentição definitiva e está ficando forte, crescendo. Tantas vezes, nas suas correrias disparatadas, embatia numa cadeira e lá ficava remexendo a língua de forma estranha. Aproximava-me e tirava-lhe da boca um dente de leite, antes que se engasgasse. Frequentemente, os animais engolem os dentes de leite ou deixam-nos caídos pelo chão. Mas nesta maluquice das suas brincadeiras constantes, entende-me e mima-me de forma única. Delicia-se com os brinquedos e peluches que lhe compro e arrasta-os pelo chão como um troféu. Quando a máquina de lavar decide engoli-los por umas horas, parece que lhe arrancaram um tesouro e, sem nenhuma timidez, dá o seu escândalo canino no pequeno quintal onde brinca.
Hoje foi dia de banho, pelo que se sente o cheiro a colónia de bébé já à distância. Está linda, cheirosa, com o pêlo macio e brilhante. Carlota sabe-o e hoje está mais vaidosa do que nunca. Está se restabelecendo e, a cada recaída, luto para que seja uma cadelinha saudável, sem mais problemas e complicações. Já sofreu muito, tendo apenas 8 meses de existência.


Falo com ela como falaria com uma pessoa, explicando-lhe certas situações, ensinando-a, repetindo palavras e dando-lhe beijos a toda a hora, pelo que, muito provavelmente, os vizinhos devem julgar que sou maluca.

domingo, junho 17, 2007

Sentimentos

Não sei bem o motivo que muitas vezes leva o meu pensamento ao papel... Talvez seja todo este encadeamento de "porquês" que sublinham o meu coração; alguns arrependimentos que lutam, numa briga acesa, com as compensações recebidas. O papel serve de juíz, testemunha e cúmplice. A dicotomia do meu ser persiste. Olho em volta e constato que todos somos iguais, sobretudo os que não conseguem admiti-lo. Os sentimentos são como o sangue que nos percorre as veias e enchem de vida o coração, deixando-o bater ao compasso de um fôlego. São a nossa sobrevivência. Sem eles estaríamos definitivamente vazios, embalsamados no tempo. A transparência não é uma exigência vital. A nossa existência como pessoas, sôfregas de emoções, sim, sem dúvida que o é. Isso não se vê ao espelho. Pelo contrário, sente-se.

sábado, junho 16, 2007

Juste un petit problème...


Após esta foto de um grupo

de"chouchous",

faltam apenas 130

reclamações dos meus

restantes fofinhos não mencionados.

Está aberto o livro.

E já que vem aí uma "chuva de textos"... Podem escrevê-los em Francês.

Et vous avez juste une minute pour les écrire:

59...58...57...40...39...25...zéro...

Bah...Je vous adore pour la vie.

Ops!


Ninguém ficou esquecido no meu coração.
Estas são algumas das protagonistas mencionadas no texto "Mais um passo".
Não sei bem como essa foto da direita surgiu na minha máquina. Pestinhas. Agora reclamem...
No grupo em pose, a Tatiana é a primeira da direita para a esquerda, seguida da Susaninha, Luisinha, Petra (ou Ana Filipa? - são gémeas, por isso a distinção é tão -tão- fácil) e a Helena, atrás, tentando aparecer na foto. Quem esqueceria estes sorrisos? Sentem-se à distância. Fica o carinho para a minha querida Tatiana, para a minha querida Vanda (na foto à esquerda: a primeira niña da esquerda para a direita), e para todos os meus chouchous que, tal como elas, não mencionei no Post anterior. Todos eles ficaram no meu coração.
Ser professor também tem destas coisas:"On met les pieds dans les plats".
É o fruto natural da idade.Não se esqueçam que avancei mais um ano no tempo.


E vamos lá "fazer a ONDA"!
(...)
As "coisas" que eles me ensinam...e eu aprendo.

sexta-feira, junho 08, 2007

Mais um passo.

Hoje cheguei mais cedo que o normal. Usualmente, sou das primeiras a lá chegar, mas hoje, por ser um dia especial, cheguei ainda mais cedo. A Joaninha fazia anos e preparei-lhe algumas surpresas. A cumplicidade dos seus colegas e amigos de turma era imensurável. Às escondidas levei uma torta recheada com creme de morangos e coberta de chantilly. Passados alguns segundos após a minha entrada "clandestina", ouvi passos apressados no corredor e sussurros. Eram algumas amigas da Joaninha que vinham correndo, escondendo-se dos funcionários, fugindo às normas. A ansiedade delas era tamanha. Confesso que a minha também. O coração parecia saltar-me do peito. Entraram na sala e logo foram chegando outros, sussurrando, correndo para a sala e escondendo-se, deixando-me numa situação confituosa. Uma parte de mim sorria abertamente, enquanto que a outra, estava deveras aflita, desesperada, perante a quebra das regras estabelecidas. Susaninha olhou para mim e disse: "Parabéns, professora." Seguiu-se um daqueles abraços que mima a alma por uma eternidade. Olhei para os meus alunos e o pensamento escapou-se na mais pura honestidade das palavras: "Não me lembrava..." Realmente, naquele preciso momento ao vê-los, só pensava na chegada da Joaninha e na surpresa preparada. Não me lembrava que também eu fazia anos. Ontem, andei horas e horas procurando e pensando no que haveria de oferecer à Joaninha. Comprei-lhe um livro do Nicholas Sparks e um kit do Boticário. Queria ter oferecido prendas a todos. Os miúdos valem tudo. São como filhos. Crescem rápido. Aos meus olhos serão sempre bébés. O irmão da Joaninha também apareceu e ofereceu-se para me ajudar. Chama-se Cristiano e tem um coração do tamanho do Universo. Não ficou connosco na aula da irmã, pois frequenta outro ano.
Durante os 90 minutos de aula que se seguiram, houve lágrimas. Vi a Joaninha, uma bonequinha de sentimentos gigantes, chorar e querer escapar-se, esquivar-se, quando lhe cantámos os parabéns. Timidamente soprou as velas... O livro que lhe ofereci tinha como título: "Um momento inesquecível". E era precisamente isso que eu queria: que ela fizesse deste seu aniversário "um momento inesquecível". Joaninha chorava de emoção, visivelmente feliz.
Também eu não consegui me conter diante do que me ofereceram: as palavras mais lindas que uma professora pode receber. Pouco a pouco, surgiram postais e eu, já de coração trémulo, ao lê-los, fui deixando escapar a emoção. Li as palavras da Carolina, da Susaninha, da Marisa e da Luisinha que, no silêncio do seu lugar na sala, me observava como pessoa, desde o início do ano. As palavras da pequenina que me encantou desde sempre com o seu sorriso, foram a gota de água final. Lágrimas garantidas diante destas meninas que transbordam ternura. E o Leo que, ao entrar na sala, me entregou um pequeno saco com a sua prenda. Julguei que estava brincando comigo. Afinal, tinha mesmo escolhido algo para me oferecer neste dia. Era um porta-chaves com o meu nome. Tem sempre a capacidade incrível de me surpreender. A Micas, sempre alegre e incapaz de passar um dia sem me dar um abraço, dizia : "Professora, quer chorar? Chore. Não tem mal algum". Limitei-me a limpar as lágrimas, saltando linhas e linhas dos postais que, lidos na íntegra, traziam à flor da pele uma emoção incontrolável. Chorei, embora sorrindo... De nada servia tapar o rosto com os envelopes dos postais. Não consegui esconder os meus sentimentos, nem faria sentido algum. No final da aula, o Cristiano, também ele em vias de comemorar o seu aniversário, abordou-me de novo. Trazia um papel dobrado nas mãos e disse-me: "Isto é para si." Seguiram-se abraços e mais beijos e abraços e fotos... Uma aluna de nível mais avançado esperava por mim na porta, pois pretendia fazer teste de recuperação. Despedi-me dos meus meninos e levei-a para um local isolado onde ela poderia fazer o teste tranquilamente. Olhei para o papelinho dobrado que o Cristiano deixara nas minhas mãos e onde se lia claramente: "PARABÉNS, PROFESSORA!" Abri-o. Era um poema. Era um poema lindo, desejando-me um dia feliz e falando de mim e das minhas aulas. Carina estava concentrada, fazendo o teste. As lágrimas pediam-me licença para cair, mas o coração sorria bem mais alto. Segui o deambular da caneta da Carina e constatei que deveria ter um "Satisfaz Plenamente". Pensei no Cristiano, no Leo, na Susaninha, na Luisinha, Marisa, Ana Filipa, Micas, Petra, Vitor, Joaninha, Diogo, Marquinho, Rúben, todos, todos eles, sem excepção, (e cujos nomes não me ocorrem todos agora) e no Djinis que hoje me ensinou a dizer algumas palavras em russo.
Os sentimentos não têm nacionalidade. O calor destes alunos ficou. A ternura deles e a sua cumplicidade são memoráveis.
Não preciso celebrar um dia de aniversário, tendo tanta alegria e mimo recebidos ao longo de tantos meses e até anos. Essa é a autenticidade de uma vivência quotidiana e não de um dia apenas.
Neste ano profissional tenho vivido muitas compensações pessoais. Muitos outros anos escolares também deixaram marcas eternas. Seriam mil e uma histórias, passando por emoções e reacções diversas. Contudo, pela primeira vez, com alunos já crescidos, este ano, passei pelo inesperado. Alguns alunos, ao se despedirem de mim, choraram. Sei que, quando os vir de novo, alguns serão já adultos, homens e mulheres, casados talvez, mas no meu coração irão ser sempe os meus "chouchous" que tanta felicidade me deram, da forma mais genuína, demonstrando as suas emoções e sorrindo: esse sorriso que completa tudo e faz esquecer a dor que a vida, por vezes, provoca em cada passo dado. São estes miúdos que me ajudam a encarar a vida com outra cor, nos seus pequenos grandes gestos: quando desabafam, expondo a intimidade dos problemas familiares, falam do seu primeiro amor, das emoções novas que sentem ou simplesmente ajudam-me a apagar o quadro, levam o meu material ou ficam junto de mim, no intervalo, abdicando do seu tempo de descanso, contando o que fizeram no dia anterior, com o entusiasmo de quem parece me conhecer desde sempre.
Ser professor é isto mesmo. Não é apenas fazer funcionar a mente... é saber dar existência, sobretudo, à alma.

sexta-feira, março 09, 2007

Je suis la femme...

O dia 8 de Março traduz toda uma luta contínua de diferença de sexos...Sem qualquer pretenção feminista, registo aqui o lindo poema cantado e as vozes emotivas de Chimène Badi, Lara Fabian e Marie Fugain. O vídeo não tem grande qualidade, mas a orquestração muito bem conseguida e as vozes superam, na minha opinião, essa lacuna.Para os corajosos que lerem este poema e o sentirem...um abraço apertado.


"Face à l'indifférence,

Au silence et à la peur...

Face aux violées et aux violences,

Aux préjuges, aux prédateurs...

Face au jour qui se lève

Et prépare ses mauvais coups...

J'ai trop de feu et de sève

Pour ne pas vouloir tenir debout.


Je suis la femme,

je suis la terre.

Fertile et fière.

Je suis la flamme et l'océan...

Je suis le ventre,

je suis la mère.

la source claire de la vie,

depuis la nuit des temps.


Face au siècle qui passe,

Face a l'ombre qui m'attend,

À l'injustice rapace

Qui plane au dessus d'un enfant...

Je suis prête à me battre

Au delà de la rumeur,

à déplacer les montagnes,

à défier le mal et le malheur...

Je suis la femme,

je suis la terre,

Fertile et fière...

Je suis la flamme et l'océan.

Je suis le ventre,

je suis la mère,

la source claire de la vie

depuis la nuit des temps.


Donner, me donner, tout donner

Du rire aux larmes

M'offrir, et souffrir et pardonner

Me brûler de passion

Jusqu'à toucher le fond

Jusqu'à mourir d'aimer


Je suis la femme,

je suis la terre,

Fertile et fière...

Je suis la flamme et l'océan...

Je suis la chair où tout commence,

la différence...

Je suis l'amour contre la mort.

Je suis le rempart de l'enfance...

C'est pour que vive, la vie,

Que mon cœur bat encore...

Que mon coeur bat encore... "


M. Fugain / C. Lemesle

domingo, fevereiro 11, 2007

Tellement beau...

Chimène Badi (Dezembro de 2006, Paris)

Soufflent les nuages de ma vie

Tournent les mirages et le vent ce soir

Quelques pages d’un songe de fille brillent

sur la toile comme un rêve d’enfant

Tellement Beau,

la vie m’a ouvert les bras comme si

comme si un ange était là vous ici,

vous êtes en bas ce qui brille de là-haut

mon courage, mon sourire, toute ma vie

Tellement Beau

Mourir dans le sable de l’ennui

J’ai chanté dans le noir si fort ce soir

Les formules magiques quand je chante

Les larmes de mes rêves d’enfant

Tellement Beau,

la vie m’a ouvert les bras comme si

comme si un ange était là vous ici,

vous êtes en bas ce qui brille de là-haut

mon courage, mon sourire toute ma vie

ce que j’aime,quand je crie

Tellement Beau …

Tellement Beau …

Et qu’importe les rires et les efforts

quand je chante je fais brûler mon âme

tout en haut sur les toits et le ciel

Tout en haut

Tout en haut

Qui brille là-haut

mon courage, mon sourire,

toute ma vie

Tellement Beau,

Comme si un ange était là ……

vous ici

Qui colle à ma peau

mon courage, mon sourire, toute ma vie

Oh que j’aime,quand je crie

Tellement Beau

Tu as rempli de joie toute ma vie !

sábado, fevereiro 03, 2007

Carta a um amigo


Esta era a Janette...
Aqui ainda bébé...
Tinha menos de um ano.
Estava em cima
de um armário pequeno...
Queria descer...
A altura era um desafio.
Lembro-me bem
do quanto resmungava...


A minha menina... já com os seus seis aninhos...

Pronta para dormir... Natal 2003...

Linda... dócil...sempre feliz...
Aqui muito concentrada num osso de mascar...


(...) Para massacrar o meu coração, o início do ano começou com a perda da minha "menina", há 10 anos existente na minha vida: uma cadelinha que parece ter vivido comigo a vida inteira. Presenciou todas as minhas alegrias e tristezas e estava sempre ao meu lado. Chorava quando eu chorava, brincava comigo, sempre bem disposta e alegre, sempre junto de mim. Nunca adormecia sem que eu a abafasse com o seu cobertor, lhe desse palmadinhas no rabinho para adormecer, com a cabeça sobre a almofada de bébé ou peluche, deitada na alcofa junto à janela do meu quarto. Foi assim que ela partiu deste nosso mundo, nessa posição...com o seu peluche...Quando ela estava doente ou tinha pesadelos, tinha de ser acordada com cuidado e lá estava eu, junto dela, acalmando ou sendo enfermeira. Falava muito com ela e se que muito do que lhe dizia ela percebia. Cumplicidade por mim nunca antes experimentada com um animal de estimação. Tinha o cesto dos seus brinquedos, peluches, o tapete da Disney, as suas alcofas, e colchões e cobertores anti-alergicos, os seus recipientes para comer todos na moda, produtos de higiene dignos dela e bebia água mineral apenas e comida especial para dieta renal. Tinha tudo o que eu lhe podia dar e por vezes até nem podia, mas tinha de dar. A família toda sempre lhe deu brinquedos. Lembro-me que em bébé, recebeu do meu irmao um osso maior que ela...e mesmo assim, lá ia ela, arrastando-o por todo o lado, fazendo-nos rir... Sempre leva-a às consultas de acompanhamento para controlar a sua saúde e ela, sempre carinhosa, diante do seu médico abanava a sua cauda, mesmo quando estava doentinha. Nunca mordeu ninguém. A casota dela foi pintada por mim com desenhos de pegadas e cores bem vivas. E ela adorava tudo isso...Tudo isso ela agradecia, porque aprendeu a deleitar-se com estes mimos e este conforto, apesar disso não ser tudo ou não ser mesmo nada diante do amor que tinha por ela e ela por mim. Antigamente riam-se desta ligação entre os humanos e os animais...Hoje respeitam-se, pois quase todos nós já perdemos um animal que amavamos mesmo e sabemos o quanto doi.Tinha nome de pessoa, porque era para mim uma pessoa. Era a Janette. Uma rafeirinha que surgiu na minha vida num período em que me sentia muito só. Lembro-me do dia em que a vi pela primeira vez e passou a noite chorando com saudades da mãe, acabando por dormir, ao lado da minha cama, com a minha mão a acarinhá-la. Partiu, de repente, quase nos meus braços. Teve um AVC, cujo pico foi mesmo nas minhas mãos. Com os cuidados médicos e no conforto da sua alcofa, conseguiu sobreviver quase 24 horas. Mesmo durante esse pequeno período de dramatismo profundo, soube comunicar comigo, chamando por mim e pelo meus mimos... que agora parecem-me tão poucos... O sucedido caiu como uma bomba no meu peito. Veio alterar tudo. Veio alterar a minha rotina. O vazio da sua ausência ficou marcado para sempre.
Desculpa o desabafo.
Acordei com esta vontade.
Vontade de ter um amigo por perto.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Sinto-te.


Queria contar-te uma coisa...

Outro dia , senti-te por perto e pensei em tudo o que já vivi. Foste e tens sido o caminho que encontro diante de mim. És a porta que se abre diante dos meus olhos e me deixa ver a outra margem, sem receio de escorregar e cair nas águas do pensamento, pois sei que, até nesse momento, tu estarias lá, afastando o lodo das pedras e mostrando o quanto são cristalinas as nascentes que aqui correm. A tua presença é luz, imagem pura, sem efeitos adicionais, sem tradução nem reflexos. Estás por todo o lado, atento, sereno, sorridente, prendendo-me à terra e à vida no verde-esperança pronunciado da relva que me acaricia os pés e sustenta os medos. Estás nos sonhos, na escrita que aqui surge. És simplesmente tu, a pessoa mais importante da minha vida, mesmo que não saiba o teu nome, nem onde vives, nem o que sentes ou pensas. Mas sinto-te. Sei que estás aí, desse lado. Sei que existes.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Gatinho!

Porque será que ele, de repente tornou-se a estrela mais interessante deste blog? Só me falam no gatinho. Confesso que também penso muito nele, o encho de beijos, mimos e ternuras, por mais que me vire as costas e insista em se limpar todo após os meus afagos. Que personalidade fria! Porque será que não resisto a lhe dar beijos e colo? Pura sedução. Peste do gato! Não é à toa que outro dia, as saudades eram tantas que quando dei por mim, estava em plena tentativa de falar com o gato pelo telemóvel. Ele não respondeu, mas pelo andar da carruagem, um dia destes ainda começa a falar. Registarei o momento, prometo.

sábado, dezembro 09, 2006

Almas gêmeas.

Estava visitando o Blog de Edson Marques e deparei-me com esse texto, como sempre intenso e sublinhado por um tempero de humor único, embriagante, um deambular que só ele consegue tecer.

Afinal o que são"almas gêmeas"? Leiam e concluam. E não se esqueçam. Rir é o melhor remédio.


"Os casais ficam cada vez mais parecidos. Comem o mesmo tipo de comida, usam os mesmos temperos, fazem as mesmas coisas, vivem na mesma casa, dormem na mesma cama, usam as mesmas toalhas, vêem os mesmos filmes, os mesmos programas de TV e quase sempre engordam com a mesma freqüência. Levantam às mesmas horas, usam o banheiro ao mesmo tempo, conversam sobre os mesmos assuntos, freqüentam os mesmos lugares, fazem amor (quando fazem) com a mesma pessoa (um só com o outro, quase sempre, e depois quase nunca!), recebem os mesmos amigos, as mesmas visitas, as mesmas influências... Acabam tendo portando os mesmos preconceitos, a mesma visão do mundo, os mesmos filhos, as mesmas regras, os mesmos planos, o mesmo tédio, o mesmo horror. Saciam-se de banalidades e entopem-se de quinquilharias. Estrangulam suas mútuas liberdades. Anulam-se. Tudo em nome de uma harmonia que suporte (nos dois sentidos) a relação... Por isso é que vão ficando cada vez mais parecidos. Até na forma de andar eles se parecem; e nas roupas que usam; e no extravagante estilo de vida. Mas o marido, pra se salvar, morre antes. Naturalmente... "

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Ligação à terra


Dizem que com o tempo vemos melhor as coisas...

Eu diria antes que vemos mais coisas.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Bolachas de água e sal


Chamava-se "Nina". Pelo menos entendi de apelidá-la dessa forma, assim que a vi. Era linda. Sempre pontual, aparecia no beiral da varanda onde se ouvia o alvoroço da criançada na piscina. E ficava ali olhando para nós, com ar faminto e agradecida. Comia duas ou três bolachas de água e sal e saia feliz, esvoaçando sobre a confusão entusiástica, lá em baixo, onde os corpos mais que bronzeados se refrescavam.
Sempre que a via chegar, falava com ela. No quarto, ouvia-te vasculhar a máquina fotográfica. "Nina" ficava ali posando, ouvindo o meu tom doce, quase que a abraçando e ignorando os flashs sequenciais que disparavas, maravilhado. Não fugia de nós. Estava habituada, como se nos tivesse conhecido a vida toda.
Emocionava-me a ternura da "Nina", cada detalhe do seu corpo e dos seus gestos, comendo delicadamente as bolachas de água e sal, esmagadas sobre o cimento cinzento do muro.

segunda-feira, junho 26, 2006

Reflexos


- Tens a certeza que não estás acrescentando nada ao guião?
Susana meteu-lhe a mão sobre os ombros.
- Nadinha. Estou simplesmente sentindo o texto.
Cristina permaneceu na dúvida. A emoção da amiga parecia tão real que até lhe dera um calafrio. Susana ficou no relvado, embriagada no texto que decorara. Cristina afastou-se. Continuava visivelmente apreensiva. Sentia o ciúme e a raiva, até nos gestos minúsculos de Susana, recortados pela sombra das árvores já distantes...
Deslizou os dedos suavemente pela água morna da lagoa, murmurando:"Isto é teatro puro, nada mais. Susana é uma actriz... Está apenas representando."
Li o movimento dos seus lábios. Ficamos olhando uma para a outra, amedrontadas.
Era assustadoramente parecida comigo, em tudo e em nada. A dança com os dedos na água calma da lagoa, acelerou, esboçando círculos, numa valsa perdida. Senti a indefinição do contorno dos meus traços, presa na sua imagem. Ainda consegui espreitá-la, na confusão das águas turvas, endireitando os cabelos louros, com ar pseudo-altivo que não escondia a ninguém a humildade, desenhada, exposta no rosto, ligeiramente perturbado.
Afastou-se da lagoa e eu fiquei ali, escondida no escuro do lodo sedentário, esperando pelo dia seguinte, presa no medo de não voltar a ver o meu reflexo.

sábado, março 18, 2006

Éternité...


Ça fait longtemps que je n'écris ni une ligne sur ce petit coin de mon coeur ni un tout petit mot...

Ça fait longtemps que j'ai perdu les rêves et l' espoir d'être ce quelqu'un que j'ai toujours fait semblant d'être...

Ça fait longtemps que je me suis perdue dans l'espace inconnu de mon âme, comme un fantôme qui parcourt les couloirs de son chemin vivant...

Pour le moment, je ne sais que ça fait longtemps...

Ça fait longtemps que j'ai fermé les yeux à la vie et que je me suis transformée dans une ombre silencieuse, angoissée à cause d'un cri de vie, étouffé dans ma mémoire, morte, devant toi.

Ça fait vraiment longtemps...

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Espelho do tempo


A vida é isto mesmo.
É feita de traços que se descobrem de forma ilógica aparentemente e que escondem o ego acorrentado de um personagem visualizado algures, encarnado agora, fruto de carências afectivas transpostas num espelho quebrado em pedaços...
A vida é isto mesmo.
É um tempo (in) completo onde ficamos pisando os pedaços de um espelho que deixa morrer uma imagem sentida e impossível de ser colorida pelos olhos, sem medo de deixar sangrar as feridas que se rasgam na pele, desenhando cicatrizes, com a certeza de que as farpas de vidro perdidas, apenas ali ficaram, abandonadas num espaço que nunca existiu.
A vida é isto mesmo: algo que não se compreende, apesar da sua transparência sempre evidente. É sangue, céu, mar, guerra, verde, azul, núvem, árvore, flor, sorrisos, lágrimas, dor, enigma, espelho que se vê, toca, sente e até cheira, de olhos fechados, mesmo quando desfeito em pedaços.
A vida é isto mesmo, por isso dá tanto gozo vivê-la.

sábado, janeiro 28, 2006

Imagina.

- Faz como eu.... Escreve e desabafa para o papel, os sentimentos que nunca tiveste e as histórias que nunca viveste.

- Mas pareces tu, Ana...

-Achas que sim? Partilhas a teoria de que também encontrei uma criança abandonada e adoptei-a. Achas que ganhei um Diário Íntimo de alguém que morreu? Achas que devoro chocolate?

Catarina calou-se. Sabia bem que eu era alérgica a chocolate e que estava longe de ser mãe.

- Mas...

O seu pensamento foi cortado pelo amontoado visível de ideias que explodiam em si.

Calou-se novamente. Dei-lhe um abraço apertado.

- Minha pequenina, estou bem. Catarina, as palavras estão vivas em mim. Alimento-me delas e vivo-as intensamente. Não tentes encontrar explicação para o que escrevo. Quero que sintas e se duvidares... é sinal que consegui o que queria: escrever de forma tão real, capaz de te confundir, despertando questões em ti, vivendo o meu texto. Esse, Catarina, é o verdadeiro objectivo de quem escreve...Fazer com que as suas palavras sejam engolidas por inteiro, que os olhos saltem de linha, ansiosos, sofregos, isolando-se do exterior, mesmo que passe junto de ti um autocarro, um carro de bombeiros, um grupo de turistas barulhentos e tu permaneças sentada, lendo, num mundo mágico que só tu conheces, agarrada ao texto que vais desvendando com curiosidade. Nem mesmo nas pessoas que escrevem o seu diário, o decalque existe, Catarina. De uma forma ou de outra, a imaginação acrescenta pedaços de história que nunca aconteceram. O prazer da escrita reside nisso.

Maria aproximou-se com um sorriso.

-Como se comportou ela, Ana?

-Lindamente como sempre. Está crescendo, a tua menina.

Catarina recebeu a mãe com um abraço e olhou directamente para mim, desafiando-me.

- Mas os sonhos, Ana, podem acontecer na vida real. Vais negar isso também?

Sorri.

A miúda sabia realmente como me deixar sem argumentos.

Não argumentei. Não podia fazê-lo. Por vários motivos.


sexta-feira, janeiro 13, 2006

Tempestade...

Ao folhear o Diário dela, uma das suas últimas confidências prendeu-me por completo. Deixo aqui um pequeno excerto:


"Não me esqueci de ti. Não poderia. Tenho vivido uma tempestade interior. São 5h24 da madrugada. Pela segunda noite não durmo. Estou vazia de sonhos e de ambições. Sinto-me perdida, sozinha e carente. Dispo a minha alma assim, diante de ti, talvez porque saiba que não me irás julgar. Considero-te meu amigo, pela tua presença hoje, neste meu espaço, onde sempre peço que fiques. Não meço a amizade pelo tempo de existência, mas pela sua qualidade. Perdida e cega na tempestade, andei por lá, à beira do precipício e sinto-me mergulhada numa tristeza sem limites... Não sei se sofri de mal de amor ou se estou com orgulho ferido. Não sou fácil. Tenho uma personalidade explosiva e defendo as minhas ideias. No entanto, reconheço que sei ouvir, sei ser tolerante, aceitar que erro e deixar-me crescer como pessoa. Isso ajuda-me. Essa humildade em reconhecer e tentar melhorar faz-me deixar as atitudes próprias da imaturidade. Mas as aparências iludem. Esta personalidade "iceberg" derrete como manteiga... Não fiques chocado. A ingenuidade, na velhice, ainda existe. Não tem idade. É tão fácil ser iludida, usada e enganada. Um dia, alguém a quem abri o meu coração, disse-me: "Estou demasiadamente frio para dizer que te amo". O contexto? Nem eu mesma sei qual foi... O efeito dessa afirmação, ficou-me para sempre no peito, na alma, na vida, trespassada por uma espada fria que me levou o último fio de felicidade. São raras as vezes que abro meu coração ao amor. Devoro a amizade sofregamente e entrego-me por completo. Chego a ter receio de amar, porque sempre sofro, perdida em sonhos que não existem. Embora saiba que a culpa nunca pertence a só uma das partes e que a tempestade não nasce do nada, começo a duvidar seriamente se não serei eu a única culpada desta inexistência triste que vivo secretamente, no meu cantinho, quando entro em casa e deparo-me, sozinha, diante das paredes silenciosas. Olho-me ao espelho...Não vejo nada disso, das palavras bonitas que me dizem. Sinto-me vazia e perdida. Vejo uma mera sombra reflectida que já nem luz tem. Não sou bonita. Já o fui, por dentro, como pessoa. Pouco importa se algo em mim desperta a atenção no sexo oposto. Transformei-me em sombra. Por dentro, amontoam-se nuvens carregadas de chuva. Nada tem interesse agora. Não sei porque ainda tento decifrar, por vezes, a sombra opaca que produzo. Do modo que me sinto, até parece que alguém morreu. Chego a pensar se terei sido eu e tenho medo. Sinto-me usada e abandonada, mas a minha vontade de não preocupar os outros é maior que tudo. Disfarço...disfarço...e disfarço... Sozinha, encolhida no meu esconderijo, dispo-me da alegria e dos mimos que tento dar aos que de mim precisam. As lágrimas sempre secam no desespero de acalmar um coração amigo. No entanto, a angústia ficou acumulada, presa e mais sofrida do que nunca. O meu poço de tristeza não tem fundo. Gerou-se uma tempestade sem limites que me suga tudo: o sangue e o ar que respiro. O futuro anda entrelaçado num céu escuro. Não vejo nada diante de mim. Sinto um aperto no peito gigante, perante essa escuridão que me cega e o abismo profundo que sussurra o meu nome, chamando por mim. Estou caindo na extinção. Quando acabo o meu trabalho, de coração cheio com os sorrisos recebidos, os mimos e a amizade, logo a felicidade desmaia e vejo apenas, diante de mim, uma sala vazia, isenta de vida, e onde fui feliz por momentos. Logo regresso ao meu silêncio e à solidão, mais vazia e nua do que nunca, despida de tudo, de vida e de querer. Desculpa o desabafo. As palavras estavam explodindo em mim. Vive a vida, amigo. Aproveita-a, ao máximo. Como diz Edson Marques, esse grande e sensato escritor que tanto me faz rir como me emociona profundamente: "Mude...mas comece devagar porque a direcção é mais importante que a velocidade (...) Só o que está morto não muda"... Quanto a mim, já não sinto espaço nem tempo para mudar, por isso temo já ter abraçado a morte e entregue meu último suspiro à tempestade que devastou todos os meus sonhos. Beijo no coração".

Não pude deixar de chorar quando li isto. Pensei no quanto éramos parecidas, embora de gerações tão díspares. Compreendi, mais uma vez o motivo de ter sido eu a escolhida para ficar com o seu pequeno Diário. A sua ausência, tão recente, embora ferida pela dor e pela saudade, fica docemente apaziguada nas palavras que escrevia todas os dias e que me entregou com um sorriso, envelhecido, mas terno, sempre com aquele ar de menina, impossível de esquecer. Recordo o olhar sereno que me dirigiu e as últimas palavras que ouvi: "Fica com ele, o meu Diário. Lê-o, aprende e cresce..."

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Histórias cor-de-rosa

- Sabes que eu te amo...
- Eu também te amo tanto...

Com os dedos perfumados de ternura, tocou-lhe carinhosamente nos lábios macios, incitando-o a calar-se.
O silêncio falava por ambos.
- Então porque é que...? - insistia.
Em resposta, abraçou-o e, aconchegada, disse-lhe junto ao ouvido, sentindo a sua própria alma a murmurar: "Não sei amar outra pessoa além de ti... e tu sabes disso". Ele afastou-a delicadamente, observando enternecido o verde emotivo daquele olhar lindo, apaixonado, transparente. Estava trémulo, como sempre ficava na presença daquela mulher que transbordava doçura na voz. Sentiu a emoção apoderar-se de todos os seus impulsos. Não conseguiu falar.
Abraçaram-se e o bater dos dois corações misturou-se, acelerado, parando o tempo.Tornaram-se amor e ficaram assim, apertados um contra o outro, numa emoção pura, verdadeira, capaz de trazer o céu à terra, num silêncio que explicava tudo sem ter de dizer nada, num diálogo expressivo que só quem ama compreende.
Suspirei, deixando em cima da mesa o livro que acabara de ler e fui para a sala. O livro, esqueci-o lá fora e ainda ouvi o vento folheá-lo, curioso. Não cedi. Não voltei a colocá-lo na estante. Deixei-o lá, dominando e pintando de cor-de-rosa todo aquele espaço. A varanda tornara-se pequena demais e o ar irrespirável. Senti o mundo real diminuir brutalmente, tornar-se minúsculo e apertado.
Restava-me na alma um consolo. Pelo menos na ficção, as histórias de amor têm frequentemente um final feliz.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Tempo...

São 2h31 da madrugada. Ainda não chegáste e fico eu aqui pensando nos tempos de adolescente em que a noção de amor era outra. Perguntaram-me hoje o que seria da vida se não houvesse contagem do tempo. Esta é uma questão que entrelaçou as minhas memórias e fixou-as contra a parede, como se tudo em volta estivesse estagnado. Preciso delas, das memórias. Não alimentam o meu tempo presente, não é isso.Tu sabes. Sempre soubeste. Foste o meu primeiro amor de verdade, era eu uma adolescente tímida, agarrada aos livros e aos sonhos. Espreitei-te mil e uma vezes atrás de uma árvore, receando ser apanhada no meio de uma atitude imatura, mas desejando não ser invisível aos teus olhos. Tu sabes... Se o tempo não fosse vivido em progressão, hoje seria vazia de recordações. Não teria então guardado no meu viver de adolescente a mais bela paixão que alguém pode viver, em silêncio, sentindo o cheiro do teu sorriso à distância, esse sorriso pelo cantinho dos lábios, que me fazia ganhar o dia, a vida e tudo o mais. E os meus passos de miúda apaixonada ganhavam ritmo, cor e alegria. E o olhar, quase tímido, mas único, atrevido, aventureiro, forte e sensível e que me tocava e acarinhava sem se dar conta. Sim... era esse o olhar que eu lia em ti quando os nossos olhos se abraçavam. Ainda bem que o tempo existe.

terça-feira, novembro 22, 2005

Um choro no beco...

Há já algum tempo que aprendera a gatinhar. Notara que a vida ao seu lado era distante e fria e tornou-se mórdiba quando o depositaram junto a um depósito de lixo. O ar estava quente e abafado. Nesse momento, um cheiro a sujidade e comida podre invadiu-lhe o nariz pequenino e os seus pulmões mostraram o poder do seu choro. E chorou. Chorou tanto que as luzes do beco acenderam-se uma a uma e alguém numa janela gritou, jogando um objecto cujo impacto no solo trouxe-o à realidade do mundo enorme que o rodeava e sentiu medo de tudo. O seu choro não cessou. Em pijama, meia adormecida, continuei descendo as escadas, tropeçando, descalça, na minha própria agonia. O elevador estava avariado. Descia do quinto andar, numa ânsia profunda de acarinhar as lágrimas de solidão que ecoavam no beco, batendo no fundo da minha alma. Cheguei junto dele e baixei-me. Era o bébé mais lindo que alguma vez vira. Quando se apercebeu da minha presença, cessou o choro angustiado e sorriu. Sorriu seguindo a emoção dos meus olhos. Tinha uns olhos lindos, sorridentes, mais verdes que um campo de erva acabado de receber água dos céus. A lua acarinhava aquele corpinho trémulo e assustado, implorando protecção. Peguei-o nos braços, encostei-o ternamente ao peito e foi assim que a vida me deu um filho.

terça-feira, novembro 08, 2005

Confesso-te...

Foram várias as vezes que abracei a morte. Foram várias as vezes que decidi viver. Foram tantas as vezes que abracei a vida. Foram várias e muitas as vezes que amei. Nunca me senti atraída pela tristeza de ninguém. Não vivo do sofrimento dos outros. Isso corrói-me. Destrói-me. A incapacidade de ficar assistindo ao sofrimento de alguém, seja ele quem for, sem poder dar uma palavra ou estender a mão, é a dor mais forte que se pode sentir. É um revirar doloroso das entranhas. É perder vida. É perder sangue e ser fria como a pedra de mármore que cobre um corpo acabado de ser entregue ao solo escuro. Na minha vida nunca houve busca desesperada. Nunca houve presas. Não fiz das pessoas vítimas de mim. Isso vê-se no que escrevo.Isso vê-se na emoção que transborda em cada palavra que escrevo e onde se adivinham por vezes lágrimas ou sorrisos. Procuro fazer de cada dia, um momento diferente e especial, mimando e acarinhando alguém que amo e que posso não ver mais no dia seguinte, porque a vida a um dos dois foi roubada por não ser eterna... Temo perder as coisas mais preciosas que a vida me colocou no colo e que foram espalhando amor e amizade no meu caminho. Por isso, não faço delas um brinquedo, como uma criança fascinada com a sua nova fantasia, mas levo a sério e muito, os outros, essa multidão que justifica a minha existência. Se eu pudesse, não hesitaria em arriscar a minha vida por alguém... Não o escrevo por ficar ou parecer bonito. Escrevo porque é assim que sinto as coisas. Vítima de acidente grave, semi-drogada com analgésicos e traumatizada com o sucedido, ao sair do hospital, deparei-me com uma criança que, na inocência dos seus 3 anos aproximadamente, se contorcia de dores, com metade do rosto desfeito, desfalecendo em sangue. No isolamento, onde estive por longas horas e cuja porta ficou semi-aberta, vi passar uma maca. Nela padecia um senhor de idade avançada que não conseguia respirar. Fizeram-lhe ali mesmo, no corredor, a tentativa de reanimação. Instintivamente, tentei sair da cama, retirar o soro e os tubos que me furavam as veias e quis ajudá-lo... De imediato, apercebi-me que não tinha forças físicas. Estava mergulhada em analgésicos. Não consegui levantar-me e chorei. Chorei muito. Não por mim. Apenas por ele, cujo rosto nem vi, mas senti. Pouco depois levaram-no para o corredor da direita e fiquei acreditando que tudo acabara bem. De regresso ao hospital e presa no meu sofrimento, não suportando a minha dor física, encostei-me à parede e as lágrimas queimaram-me o rosto sem pedir licença... Nesse momento, assisti a um choro quase cantado, um lamento triste e sofrido, de uma senhora de origens humildes que dizia não conseguir respirar. O seu estado psicológico era do mais degradante possível. Levantei-me e quis falar com ela, quis acalmá-la. Esqueci-me de mim. Seguraram-me. Fui impedida de tal. Sou como qualquer humano. Não sou mais que ninguém... Perante tanta vida dorida que desfila bem diante dos meus olhos, considero-me bem e feliz. O meu sofrimento passa para segundo plano. Certa ou errada, a minha vida começa por quem me rodeia. Não consigo odiar ninguém. Até mesmo quem já amei por tantos e tantos anos e que o destino levou à separação, hoje é um dos meus melhores amigos e jamais esquecerei o quanto me fez feliz. Recordar os momentos felizes é a solução para esquecer as amarguras da vida. Desconhecidas ou não, é nas pessoas que se movem em redor de mim que encontro lições de vida e aprendo a valorizar cada segundo perdido que passei agarrada a uma almofada a chorar... Aprendi e formei no meu coração, dadas as vivências que me inflamaram, que o pior drama da vida é fazer da vida um drama. Não vale a pena dramatizá-la mais do que ela parece ser. O dia seguinte não me importa. Apenas tenho o Presente. Isso não significa que não sonhe e que não tenha no coração a vontade de viver muito e ser amada de verdade por um coração autêntico, honesto e sensível. Sonhar faz parte da vida e filosofias de existência existem muitas. Sou feliz, dando aos outros o que eles não têm: atenção, carinho, mimos e, todos os dias, um sorriso - mesmo quando a alma chora - pois nesse sorriso encontro, por vezes, outro, bem maior que o meu, ganho asas e consigo voar. A minha vida só pode mesmo ser vivida assim.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Momentos...

Houve dias em que o corpo dela estremecia de prazer só de sentir o vento passando por perto... Houve noites em que a emoção era tão forte que o seu desejo dava asas a uma personagem que ela mesma inventava na hora e sentia-se feliz, vendo ao seu lado, deitado o sorriso mais lindo do mundo. As palavras de amor trocadas, imaginadas ou não, nunca ninguém o soube, ficaram gravadas na memória de quem leu o seu diário: o pequeno livrinho onde ela depositava as suas confidências, plenas de sensualidade, erotismo e vida. Houve dias assim.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Pequenina...


"Não te afastes, pequenina..." Ouvi isso tantas e tantas vezes em criança, quando as flores, os pássaros, as ondas do mar e as nuvens brancas falavam comigo... Pensei que a voz da infância se apagaria, extinta numa inocência que se presume perdida, mas ainda a ouço, dançando junto aos meus ouvidos, voando num vento que apenas se sente na alma... Ainda a ouço e ainda hoje procuro entendê-la.

segunda-feira, julho 25, 2005

Dar as mãos a um sonho...


O sonho dela era dar as mãos à sua vontade quase inata de estar em cima de um palco e cantar. Não pretendia exibir-se nem o estatuto de uma vedeta. Sonhava levar na sua voz mensagens de amor e de carinho, capazes de emocionar os corações mais solitários e de completá-los um pouco. Sonhava tocar as almas de quem a escutava e que dizia que a sua voz era suave como o vento e doce como o orvalho matinal. O amor que trazia inscrito no seu peito era tanto... Amava a vida, as coisas que via, as cores e os cheiros intensos que perfumavam as suas memórias. Crescia no toque da pele que escorregava pela sua, também ele cantando de prazer. Eram emoções únicas que, apenas num pouco do amor que lhe rebentava na voz, seriam capazes de transparecer naturalmente. Estava na hora de voar nesse sonho que nascera com ela. Estava na hora de ser feliz e de fazer alguém feliz. Deixou-se escorregar na cadeira de baloiço que a embalava na varanda. Viu as estrelas brilhando no céu e partilhou com elas o seu pensamento. Quem sabe não estaria algures nesse céu alguém esperando pela sua voz que diziam ser doce. Fechou os olhos e beijou o medalhão que trazia posto no peito."Tu sabes quem sou", segredou-lhe. E ficou assim, baloiçando nos seus sonhos.