domingo, fevereiro 11, 2007

Tellement beau...

Chimène Badi (Dezembro de 2006, Paris)

Soufflent les nuages de ma vie

Tournent les mirages et le vent ce soir

Quelques pages d’un songe de fille brillent

sur la toile comme un rêve d’enfant

Tellement Beau,

la vie m’a ouvert les bras comme si

comme si un ange était là vous ici,

vous êtes en bas ce qui brille de là-haut

mon courage, mon sourire, toute ma vie

Tellement Beau

Mourir dans le sable de l’ennui

J’ai chanté dans le noir si fort ce soir

Les formules magiques quand je chante

Les larmes de mes rêves d’enfant

Tellement Beau,

la vie m’a ouvert les bras comme si

comme si un ange était là vous ici,

vous êtes en bas ce qui brille de là-haut

mon courage, mon sourire toute ma vie

ce que j’aime,quand je crie

Tellement Beau …

Tellement Beau …

Et qu’importe les rires et les efforts

quand je chante je fais brûler mon âme

tout en haut sur les toits et le ciel

Tout en haut

Tout en haut

Qui brille là-haut

mon courage, mon sourire,

toute ma vie

Tellement Beau,

Comme si un ange était là ……

vous ici

Qui colle à ma peau

mon courage, mon sourire, toute ma vie

Oh que j’aime,quand je crie

Tellement Beau

Tu as rempli de joie toute ma vie !

sábado, fevereiro 03, 2007

Carta a um amigo


Esta era a Janette...
Aqui ainda bébé...
Tinha menos de um ano.
Estava em cima
de um armário pequeno...
Queria descer...
A altura era um desafio.
Lembro-me bem
do quanto resmungava...


A minha menina... já com os seus seis aninhos...

Pronta para dormir... Natal 2003...

Linda... dócil...sempre feliz...
Aqui muito concentrada num osso de mascar...


(...) Para massacrar o meu coração, o início do ano começou com a perda da minha "menina", há 10 anos existente na minha vida: uma cadelinha que parece ter vivido comigo a vida inteira. Presenciou todas as minhas alegrias e tristezas e estava sempre ao meu lado. Chorava quando eu chorava, brincava comigo, sempre bem disposta e alegre, sempre junto de mim. Nunca adormecia sem que eu a abafasse com o seu cobertor, lhe desse palmadinhas no rabinho para adormecer, com a cabeça sobre a almofada de bébé ou peluche, deitada na alcofa junto à janela do meu quarto. Foi assim que ela partiu deste nosso mundo, nessa posição...com o seu peluche...Quando ela estava doente ou tinha pesadelos, tinha de ser acordada com cuidado e lá estava eu, junto dela, acalmando ou sendo enfermeira. Falava muito com ela e se que muito do que lhe dizia ela percebia. Cumplicidade por mim nunca antes experimentada com um animal de estimação. Tinha o cesto dos seus brinquedos, peluches, o tapete da Disney, as suas alcofas, e colchões e cobertores anti-alergicos, os seus recipientes para comer todos na moda, produtos de higiene dignos dela e bebia água mineral apenas e comida especial para dieta renal. Tinha tudo o que eu lhe podia dar e por vezes até nem podia, mas tinha de dar. A família toda sempre lhe deu brinquedos. Lembro-me que em bébé, recebeu do meu irmao um osso maior que ela...e mesmo assim, lá ia ela, arrastando-o por todo o lado, fazendo-nos rir... Sempre leva-a às consultas de acompanhamento para controlar a sua saúde e ela, sempre carinhosa, diante do seu médico abanava a sua cauda, mesmo quando estava doentinha. Nunca mordeu ninguém. A casota dela foi pintada por mim com desenhos de pegadas e cores bem vivas. E ela adorava tudo isso...Tudo isso ela agradecia, porque aprendeu a deleitar-se com estes mimos e este conforto, apesar disso não ser tudo ou não ser mesmo nada diante do amor que tinha por ela e ela por mim. Antigamente riam-se desta ligação entre os humanos e os animais...Hoje respeitam-se, pois quase todos nós já perdemos um animal que amavamos mesmo e sabemos o quanto doi.Tinha nome de pessoa, porque era para mim uma pessoa. Era a Janette. Uma rafeirinha que surgiu na minha vida num período em que me sentia muito só. Lembro-me do dia em que a vi pela primeira vez e passou a noite chorando com saudades da mãe, acabando por dormir, ao lado da minha cama, com a minha mão a acarinhá-la. Partiu, de repente, quase nos meus braços. Teve um AVC, cujo pico foi mesmo nas minhas mãos. Com os cuidados médicos e no conforto da sua alcofa, conseguiu sobreviver quase 24 horas. Mesmo durante esse pequeno período de dramatismo profundo, soube comunicar comigo, chamando por mim e pelo meus mimos... que agora parecem-me tão poucos... O sucedido caiu como uma bomba no meu peito. Veio alterar tudo. Veio alterar a minha rotina. O vazio da sua ausência ficou marcado para sempre.
Desculpa o desabafo.
Acordei com esta vontade.
Vontade de ter um amigo por perto.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Sinto-te.


Queria contar-te uma coisa...

Outro dia , senti-te por perto e pensei em tudo o que já vivi. Foste e tens sido o caminho que encontro diante de mim. És a porta que se abre diante dos meus olhos e me deixa ver a outra margem, sem receio de escorregar e cair nas águas do pensamento, pois sei que, até nesse momento, tu estarias lá, afastando o lodo das pedras e mostrando o quanto são cristalinas as nascentes que aqui correm. A tua presença é luz, imagem pura, sem efeitos adicionais, sem tradução nem reflexos. Estás por todo o lado, atento, sereno, sorridente, prendendo-me à terra e à vida no verde-esperança pronunciado da relva que me acaricia os pés e sustenta os medos. Estás nos sonhos, na escrita que aqui surge. És simplesmente tu, a pessoa mais importante da minha vida, mesmo que não saiba o teu nome, nem onde vives, nem o que sentes ou pensas. Mas sinto-te. Sei que estás aí, desse lado. Sei que existes.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Gatinho!

Porque será que ele, de repente tornou-se a estrela mais interessante deste blog? Só me falam no gatinho. Confesso que também penso muito nele, o encho de beijos, mimos e ternuras, por mais que me vire as costas e insista em se limpar todo após os meus afagos. Que personalidade fria! Porque será que não resisto a lhe dar beijos e colo? Pura sedução. Peste do gato! Não é à toa que outro dia, as saudades eram tantas que quando dei por mim, estava em plena tentativa de falar com o gato pelo telemóvel. Ele não respondeu, mas pelo andar da carruagem, um dia destes ainda começa a falar. Registarei o momento, prometo.

sábado, dezembro 09, 2006

Almas gêmeas.

Estava visitando o Blog de Edson Marques e deparei-me com esse texto, como sempre intenso e sublinhado por um tempero de humor único, embriagante, um deambular que só ele consegue tecer.

Afinal o que são"almas gêmeas"? Leiam e concluam. E não se esqueçam. Rir é o melhor remédio.


"Os casais ficam cada vez mais parecidos. Comem o mesmo tipo de comida, usam os mesmos temperos, fazem as mesmas coisas, vivem na mesma casa, dormem na mesma cama, usam as mesmas toalhas, vêem os mesmos filmes, os mesmos programas de TV e quase sempre engordam com a mesma freqüência. Levantam às mesmas horas, usam o banheiro ao mesmo tempo, conversam sobre os mesmos assuntos, freqüentam os mesmos lugares, fazem amor (quando fazem) com a mesma pessoa (um só com o outro, quase sempre, e depois quase nunca!), recebem os mesmos amigos, as mesmas visitas, as mesmas influências... Acabam tendo portando os mesmos preconceitos, a mesma visão do mundo, os mesmos filhos, as mesmas regras, os mesmos planos, o mesmo tédio, o mesmo horror. Saciam-se de banalidades e entopem-se de quinquilharias. Estrangulam suas mútuas liberdades. Anulam-se. Tudo em nome de uma harmonia que suporte (nos dois sentidos) a relação... Por isso é que vão ficando cada vez mais parecidos. Até na forma de andar eles se parecem; e nas roupas que usam; e no extravagante estilo de vida. Mas o marido, pra se salvar, morre antes. Naturalmente... "

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Ligação à terra


Dizem que com o tempo vemos melhor as coisas...

Eu diria antes que vemos mais coisas.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Bolachas de água e sal


Chamava-se "Nina". Pelo menos entendi de apelidá-la dessa forma, assim que a vi. Era linda. Sempre pontual, aparecia no beiral da varanda onde se ouvia o alvoroço da criançada na piscina. E ficava ali olhando para nós, com ar faminto e agradecida. Comia duas ou três bolachas de água e sal e saia feliz, esvoaçando sobre a confusão entusiástica, lá em baixo, onde os corpos mais que bronzeados se refrescavam.
Sempre que a via chegar, falava com ela. No quarto, ouvia-te vasculhar a máquina fotográfica. "Nina" ficava ali posando, ouvindo o meu tom doce, quase que a abraçando e ignorando os flashs sequenciais que disparavas, maravilhado. Não fugia de nós. Estava habituada, como se nos tivesse conhecido a vida toda.
Emocionava-me a ternura da "Nina", cada detalhe do seu corpo e dos seus gestos, comendo delicadamente as bolachas de água e sal, esmagadas sobre o cimento cinzento do muro.

segunda-feira, junho 26, 2006

Reflexos


- Tens a certeza que não estás acrescentando nada ao guião?
Susana meteu-lhe a mão sobre os ombros.
- Nadinha. Estou simplesmente sentindo o texto.
Cristina permaneceu na dúvida. A emoção da amiga parecia tão real que até lhe dera um calafrio. Susana ficou no relvado, embriagada no texto que decorara. Cristina afastou-se. Continuava visivelmente apreensiva. Sentia o ciúme e a raiva, até nos gestos minúsculos de Susana, recortados pela sombra das árvores já distantes...
Deslizou os dedos suavemente pela água morna da lagoa, murmurando:"Isto é teatro puro, nada mais. Susana é uma actriz... Está apenas representando."
Li o movimento dos seus lábios. Ficamos olhando uma para a outra, amedrontadas.
Era assustadoramente parecida comigo, em tudo e em nada. A dança com os dedos na água calma da lagoa, acelerou, esboçando círculos, numa valsa perdida. Senti a indefinição do contorno dos meus traços, presa na sua imagem. Ainda consegui espreitá-la, na confusão das águas turvas, endireitando os cabelos louros, com ar pseudo-altivo que não escondia a ninguém a humildade, desenhada, exposta no rosto, ligeiramente perturbado.
Afastou-se da lagoa e eu fiquei ali, escondida no escuro do lodo sedentário, esperando pelo dia seguinte, presa no medo de não voltar a ver o meu reflexo.

sábado, março 18, 2006

Éternité...


Ça fait longtemps que je n'écris ni une ligne sur ce petit coin de mon coeur ni un tout petit mot...

Ça fait longtemps que j'ai perdu les rêves et l' espoir d'être ce quelqu'un que j'ai toujours fait semblant d'être...

Ça fait longtemps que je me suis perdue dans l'espace inconnu de mon âme, comme un fantôme qui parcourt les couloirs de son chemin vivant...

Pour le moment, je ne sais que ça fait longtemps...

Ça fait longtemps que j'ai fermé les yeux à la vie et que je me suis transformée dans une ombre silencieuse, angoissée à cause d'un cri de vie, étouffé dans ma mémoire, morte, devant toi.

Ça fait vraiment longtemps...

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Espelho do tempo


A vida é isto mesmo.
É feita de traços que se descobrem de forma ilógica aparentemente e que escondem o ego acorrentado de um personagem visualizado algures, encarnado agora, fruto de carências afectivas transpostas num espelho quebrado em pedaços...
A vida é isto mesmo.
É um tempo (in) completo onde ficamos pisando os pedaços de um espelho que deixa morrer uma imagem sentida e impossível de ser colorida pelos olhos, sem medo de deixar sangrar as feridas que se rasgam na pele, desenhando cicatrizes, com a certeza de que as farpas de vidro perdidas, apenas ali ficaram, abandonadas num espaço que nunca existiu.
A vida é isto mesmo: algo que não se compreende, apesar da sua transparência sempre evidente. É sangue, céu, mar, guerra, verde, azul, núvem, árvore, flor, sorrisos, lágrimas, dor, enigma, espelho que se vê, toca, sente e até cheira, de olhos fechados, mesmo quando desfeito em pedaços.
A vida é isto mesmo, por isso dá tanto gozo vivê-la.

sábado, janeiro 28, 2006

Imagina.

- Faz como eu.... Escreve e desabafa para o papel, os sentimentos que nunca tiveste e as histórias que nunca viveste.

- Mas pareces tu, Ana...

-Achas que sim? Partilhas a teoria de que também encontrei uma criança abandonada e adoptei-a. Achas que ganhei um Diário Íntimo de alguém que morreu? Achas que devoro chocolate?

Catarina calou-se. Sabia bem que eu era alérgica a chocolate e que estava longe de ser mãe.

- Mas...

O seu pensamento foi cortado pelo amontoado visível de ideias que explodiam em si.

Calou-se novamente. Dei-lhe um abraço apertado.

- Minha pequenina, estou bem. Catarina, as palavras estão vivas em mim. Alimento-me delas e vivo-as intensamente. Não tentes encontrar explicação para o que escrevo. Quero que sintas e se duvidares... é sinal que consegui o que queria: escrever de forma tão real, capaz de te confundir, despertando questões em ti, vivendo o meu texto. Esse, Catarina, é o verdadeiro objectivo de quem escreve...Fazer com que as suas palavras sejam engolidas por inteiro, que os olhos saltem de linha, ansiosos, sofregos, isolando-se do exterior, mesmo que passe junto de ti um autocarro, um carro de bombeiros, um grupo de turistas barulhentos e tu permaneças sentada, lendo, num mundo mágico que só tu conheces, agarrada ao texto que vais desvendando com curiosidade. Nem mesmo nas pessoas que escrevem o seu diário, o decalque existe, Catarina. De uma forma ou de outra, a imaginação acrescenta pedaços de história que nunca aconteceram. O prazer da escrita reside nisso.

Maria aproximou-se com um sorriso.

-Como se comportou ela, Ana?

-Lindamente como sempre. Está crescendo, a tua menina.

Catarina recebeu a mãe com um abraço e olhou directamente para mim, desafiando-me.

- Mas os sonhos, Ana, podem acontecer na vida real. Vais negar isso também?

Sorri.

A miúda sabia realmente como me deixar sem argumentos.

Não argumentei. Não podia fazê-lo. Por vários motivos.


sexta-feira, janeiro 13, 2006

Tempestade...

Ao folhear o Diário dela, uma das suas últimas confidências prendeu-me por completo. Deixo aqui um pequeno excerto:


"Não me esqueci de ti. Não poderia. Tenho vivido uma tempestade interior. São 5h24 da madrugada. Pela segunda noite não durmo. Estou vazia de sonhos e de ambições. Sinto-me perdida, sozinha e carente. Dispo a minha alma assim, diante de ti, talvez porque saiba que não me irás julgar. Considero-te meu amigo, pela tua presença hoje, neste meu espaço, onde sempre peço que fiques. Não meço a amizade pelo tempo de existência, mas pela sua qualidade. Perdida e cega na tempestade, andei por lá, à beira do precipício e sinto-me mergulhada numa tristeza sem limites... Não sei se sofri de mal de amor ou se estou com orgulho ferido. Não sou fácil. Tenho uma personalidade explosiva e defendo as minhas ideias. No entanto, reconheço que sei ouvir, sei ser tolerante, aceitar que erro e deixar-me crescer como pessoa. Isso ajuda-me. Essa humildade em reconhecer e tentar melhorar faz-me deixar as atitudes próprias da imaturidade. Mas as aparências iludem. Esta personalidade "iceberg" derrete como manteiga... Não fiques chocado. A ingenuidade, na velhice, ainda existe. Não tem idade. É tão fácil ser iludida, usada e enganada. Um dia, alguém a quem abri o meu coração, disse-me: "Estou demasiadamente frio para dizer que te amo". O contexto? Nem eu mesma sei qual foi... O efeito dessa afirmação, ficou-me para sempre no peito, na alma, na vida, trespassada por uma espada fria que me levou o último fio de felicidade. São raras as vezes que abro meu coração ao amor. Devoro a amizade sofregamente e entrego-me por completo. Chego a ter receio de amar, porque sempre sofro, perdida em sonhos que não existem. Embora saiba que a culpa nunca pertence a só uma das partes e que a tempestade não nasce do nada, começo a duvidar seriamente se não serei eu a única culpada desta inexistência triste que vivo secretamente, no meu cantinho, quando entro em casa e deparo-me, sozinha, diante das paredes silenciosas. Olho-me ao espelho...Não vejo nada disso, das palavras bonitas que me dizem. Sinto-me vazia e perdida. Vejo uma mera sombra reflectida que já nem luz tem. Não sou bonita. Já o fui, por dentro, como pessoa. Pouco importa se algo em mim desperta a atenção no sexo oposto. Transformei-me em sombra. Por dentro, amontoam-se nuvens carregadas de chuva. Nada tem interesse agora. Não sei porque ainda tento decifrar, por vezes, a sombra opaca que produzo. Do modo que me sinto, até parece que alguém morreu. Chego a pensar se terei sido eu e tenho medo. Sinto-me usada e abandonada, mas a minha vontade de não preocupar os outros é maior que tudo. Disfarço...disfarço...e disfarço... Sozinha, encolhida no meu esconderijo, dispo-me da alegria e dos mimos que tento dar aos que de mim precisam. As lágrimas sempre secam no desespero de acalmar um coração amigo. No entanto, a angústia ficou acumulada, presa e mais sofrida do que nunca. O meu poço de tristeza não tem fundo. Gerou-se uma tempestade sem limites que me suga tudo: o sangue e o ar que respiro. O futuro anda entrelaçado num céu escuro. Não vejo nada diante de mim. Sinto um aperto no peito gigante, perante essa escuridão que me cega e o abismo profundo que sussurra o meu nome, chamando por mim. Estou caindo na extinção. Quando acabo o meu trabalho, de coração cheio com os sorrisos recebidos, os mimos e a amizade, logo a felicidade desmaia e vejo apenas, diante de mim, uma sala vazia, isenta de vida, e onde fui feliz por momentos. Logo regresso ao meu silêncio e à solidão, mais vazia e nua do que nunca, despida de tudo, de vida e de querer. Desculpa o desabafo. As palavras estavam explodindo em mim. Vive a vida, amigo. Aproveita-a, ao máximo. Como diz Edson Marques, esse grande e sensato escritor que tanto me faz rir como me emociona profundamente: "Mude...mas comece devagar porque a direcção é mais importante que a velocidade (...) Só o que está morto não muda"... Quanto a mim, já não sinto espaço nem tempo para mudar, por isso temo já ter abraçado a morte e entregue meu último suspiro à tempestade que devastou todos os meus sonhos. Beijo no coração".

Não pude deixar de chorar quando li isto. Pensei no quanto éramos parecidas, embora de gerações tão díspares. Compreendi, mais uma vez o motivo de ter sido eu a escolhida para ficar com o seu pequeno Diário. A sua ausência, tão recente, embora ferida pela dor e pela saudade, fica docemente apaziguada nas palavras que escrevia todas os dias e que me entregou com um sorriso, envelhecido, mas terno, sempre com aquele ar de menina, impossível de esquecer. Recordo o olhar sereno que me dirigiu e as últimas palavras que ouvi: "Fica com ele, o meu Diário. Lê-o, aprende e cresce..."

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Histórias cor-de-rosa

- Sabes que eu te amo...
- Eu também te amo tanto...

Com os dedos perfumados de ternura, tocou-lhe carinhosamente nos lábios macios, incitando-o a calar-se.
O silêncio falava por ambos.
- Então porque é que...? - insistia.
Em resposta, abraçou-o e, aconchegada, disse-lhe junto ao ouvido, sentindo a sua própria alma a murmurar: "Não sei amar outra pessoa além de ti... e tu sabes disso". Ele afastou-a delicadamente, observando enternecido o verde emotivo daquele olhar lindo, apaixonado, transparente. Estava trémulo, como sempre ficava na presença daquela mulher que transbordava doçura na voz. Sentiu a emoção apoderar-se de todos os seus impulsos. Não conseguiu falar.
Abraçaram-se e o bater dos dois corações misturou-se, acelerado, parando o tempo.Tornaram-se amor e ficaram assim, apertados um contra o outro, numa emoção pura, verdadeira, capaz de trazer o céu à terra, num silêncio que explicava tudo sem ter de dizer nada, num diálogo expressivo que só quem ama compreende.
Suspirei, deixando em cima da mesa o livro que acabara de ler e fui para a sala. O livro, esqueci-o lá fora e ainda ouvi o vento folheá-lo, curioso. Não cedi. Não voltei a colocá-lo na estante. Deixei-o lá, dominando e pintando de cor-de-rosa todo aquele espaço. A varanda tornara-se pequena demais e o ar irrespirável. Senti o mundo real diminuir brutalmente, tornar-se minúsculo e apertado.
Restava-me na alma um consolo. Pelo menos na ficção, as histórias de amor têm frequentemente um final feliz.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Tempo...

São 2h31 da madrugada. Ainda não chegáste e fico eu aqui pensando nos tempos de adolescente em que a noção de amor era outra. Perguntaram-me hoje o que seria da vida se não houvesse contagem do tempo. Esta é uma questão que entrelaçou as minhas memórias e fixou-as contra a parede, como se tudo em volta estivesse estagnado. Preciso delas, das memórias. Não alimentam o meu tempo presente, não é isso.Tu sabes. Sempre soubeste. Foste o meu primeiro amor de verdade, era eu uma adolescente tímida, agarrada aos livros e aos sonhos. Espreitei-te mil e uma vezes atrás de uma árvore, receando ser apanhada no meio de uma atitude imatura, mas desejando não ser invisível aos teus olhos. Tu sabes... Se o tempo não fosse vivido em progressão, hoje seria vazia de recordações. Não teria então guardado no meu viver de adolescente a mais bela paixão que alguém pode viver, em silêncio, sentindo o cheiro do teu sorriso à distância, esse sorriso pelo cantinho dos lábios, que me fazia ganhar o dia, a vida e tudo o mais. E os meus passos de miúda apaixonada ganhavam ritmo, cor e alegria. E o olhar, quase tímido, mas único, atrevido, aventureiro, forte e sensível e que me tocava e acarinhava sem se dar conta. Sim... era esse o olhar que eu lia em ti quando os nossos olhos se abraçavam. Ainda bem que o tempo existe.

terça-feira, novembro 22, 2005

Um choro no beco...

Há já algum tempo que aprendera a gatinhar. Notara que a vida ao seu lado era distante e fria e tornou-se mórdiba quando o depositaram junto a um depósito de lixo. O ar estava quente e abafado. Nesse momento, um cheiro a sujidade e comida podre invadiu-lhe o nariz pequenino e os seus pulmões mostraram o poder do seu choro. E chorou. Chorou tanto que as luzes do beco acenderam-se uma a uma e alguém numa janela gritou, jogando um objecto cujo impacto no solo trouxe-o à realidade do mundo enorme que o rodeava e sentiu medo de tudo. O seu choro não cessou. Em pijama, meia adormecida, continuei descendo as escadas, tropeçando, descalça, na minha própria agonia. O elevador estava avariado. Descia do quinto andar, numa ânsia profunda de acarinhar as lágrimas de solidão que ecoavam no beco, batendo no fundo da minha alma. Cheguei junto dele e baixei-me. Era o bébé mais lindo que alguma vez vira. Quando se apercebeu da minha presença, cessou o choro angustiado e sorriu. Sorriu seguindo a emoção dos meus olhos. Tinha uns olhos lindos, sorridentes, mais verdes que um campo de erva acabado de receber água dos céus. A lua acarinhava aquele corpinho trémulo e assustado, implorando protecção. Peguei-o nos braços, encostei-o ternamente ao peito e foi assim que a vida me deu um filho.

terça-feira, novembro 08, 2005

Confesso-te...

Foram várias as vezes que abracei a morte. Foram várias as vezes que decidi viver. Foram tantas as vezes que abracei a vida. Foram várias e muitas as vezes que amei. Nunca me senti atraída pela tristeza de ninguém. Não vivo do sofrimento dos outros. Isso corrói-me. Destrói-me. A incapacidade de ficar assistindo ao sofrimento de alguém, seja ele quem for, sem poder dar uma palavra ou estender a mão, é a dor mais forte que se pode sentir. É um revirar doloroso das entranhas. É perder vida. É perder sangue e ser fria como a pedra de mármore que cobre um corpo acabado de ser entregue ao solo escuro. Na minha vida nunca houve busca desesperada. Nunca houve presas. Não fiz das pessoas vítimas de mim. Isso vê-se no que escrevo.Isso vê-se na emoção que transborda em cada palavra que escrevo e onde se adivinham por vezes lágrimas ou sorrisos. Procuro fazer de cada dia, um momento diferente e especial, mimando e acarinhando alguém que amo e que posso não ver mais no dia seguinte, porque a vida a um dos dois foi roubada por não ser eterna... Temo perder as coisas mais preciosas que a vida me colocou no colo e que foram espalhando amor e amizade no meu caminho. Por isso, não faço delas um brinquedo, como uma criança fascinada com a sua nova fantasia, mas levo a sério e muito, os outros, essa multidão que justifica a minha existência. Se eu pudesse, não hesitaria em arriscar a minha vida por alguém... Não o escrevo por ficar ou parecer bonito. Escrevo porque é assim que sinto as coisas. Vítima de acidente grave, semi-drogada com analgésicos e traumatizada com o sucedido, ao sair do hospital, deparei-me com uma criança que, na inocência dos seus 3 anos aproximadamente, se contorcia de dores, com metade do rosto desfeito, desfalecendo em sangue. No isolamento, onde estive por longas horas e cuja porta ficou semi-aberta, vi passar uma maca. Nela padecia um senhor de idade avançada que não conseguia respirar. Fizeram-lhe ali mesmo, no corredor, a tentativa de reanimação. Instintivamente, tentei sair da cama, retirar o soro e os tubos que me furavam as veias e quis ajudá-lo... De imediato, apercebi-me que não tinha forças físicas. Estava mergulhada em analgésicos. Não consegui levantar-me e chorei. Chorei muito. Não por mim. Apenas por ele, cujo rosto nem vi, mas senti. Pouco depois levaram-no para o corredor da direita e fiquei acreditando que tudo acabara bem. De regresso ao hospital e presa no meu sofrimento, não suportando a minha dor física, encostei-me à parede e as lágrimas queimaram-me o rosto sem pedir licença... Nesse momento, assisti a um choro quase cantado, um lamento triste e sofrido, de uma senhora de origens humildes que dizia não conseguir respirar. O seu estado psicológico era do mais degradante possível. Levantei-me e quis falar com ela, quis acalmá-la. Esqueci-me de mim. Seguraram-me. Fui impedida de tal. Sou como qualquer humano. Não sou mais que ninguém... Perante tanta vida dorida que desfila bem diante dos meus olhos, considero-me bem e feliz. O meu sofrimento passa para segundo plano. Certa ou errada, a minha vida começa por quem me rodeia. Não consigo odiar ninguém. Até mesmo quem já amei por tantos e tantos anos e que o destino levou à separação, hoje é um dos meus melhores amigos e jamais esquecerei o quanto me fez feliz. Recordar os momentos felizes é a solução para esquecer as amarguras da vida. Desconhecidas ou não, é nas pessoas que se movem em redor de mim que encontro lições de vida e aprendo a valorizar cada segundo perdido que passei agarrada a uma almofada a chorar... Aprendi e formei no meu coração, dadas as vivências que me inflamaram, que o pior drama da vida é fazer da vida um drama. Não vale a pena dramatizá-la mais do que ela parece ser. O dia seguinte não me importa. Apenas tenho o Presente. Isso não significa que não sonhe e que não tenha no coração a vontade de viver muito e ser amada de verdade por um coração autêntico, honesto e sensível. Sonhar faz parte da vida e filosofias de existência existem muitas. Sou feliz, dando aos outros o que eles não têm: atenção, carinho, mimos e, todos os dias, um sorriso - mesmo quando a alma chora - pois nesse sorriso encontro, por vezes, outro, bem maior que o meu, ganho asas e consigo voar. A minha vida só pode mesmo ser vivida assim.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Momentos...

Houve dias em que o corpo dela estremecia de prazer só de sentir o vento passando por perto... Houve noites em que a emoção era tão forte que o seu desejo dava asas a uma personagem que ela mesma inventava na hora e sentia-se feliz, vendo ao seu lado, deitado o sorriso mais lindo do mundo. As palavras de amor trocadas, imaginadas ou não, nunca ninguém o soube, ficaram gravadas na memória de quem leu o seu diário: o pequeno livrinho onde ela depositava as suas confidências, plenas de sensualidade, erotismo e vida. Houve dias assim.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Pequenina...


"Não te afastes, pequenina..." Ouvi isso tantas e tantas vezes em criança, quando as flores, os pássaros, as ondas do mar e as nuvens brancas falavam comigo... Pensei que a voz da infância se apagaria, extinta numa inocência que se presume perdida, mas ainda a ouço, dançando junto aos meus ouvidos, voando num vento que apenas se sente na alma... Ainda a ouço e ainda hoje procuro entendê-la.

segunda-feira, julho 25, 2005

Dar as mãos a um sonho...


O sonho dela era dar as mãos à sua vontade quase inata de estar em cima de um palco e cantar. Não pretendia exibir-se nem o estatuto de uma vedeta. Sonhava levar na sua voz mensagens de amor e de carinho, capazes de emocionar os corações mais solitários e de completá-los um pouco. Sonhava tocar as almas de quem a escutava e que dizia que a sua voz era suave como o vento e doce como o orvalho matinal. O amor que trazia inscrito no seu peito era tanto... Amava a vida, as coisas que via, as cores e os cheiros intensos que perfumavam as suas memórias. Crescia no toque da pele que escorregava pela sua, também ele cantando de prazer. Eram emoções únicas que, apenas num pouco do amor que lhe rebentava na voz, seriam capazes de transparecer naturalmente. Estava na hora de voar nesse sonho que nascera com ela. Estava na hora de ser feliz e de fazer alguém feliz. Deixou-se escorregar na cadeira de baloiço que a embalava na varanda. Viu as estrelas brilhando no céu e partilhou com elas o seu pensamento. Quem sabe não estaria algures nesse céu alguém esperando pela sua voz que diziam ser doce. Fechou os olhos e beijou o medalhão que trazia posto no peito."Tu sabes quem sou", segredou-lhe. E ficou assim, baloiçando nos seus sonhos.

Ensina-me de novo...

Esqueci como se sorri... Isolei-me da vida, do tempo e das emoções. Já não sei como se faz para sorrir, para chorar.
Esqueci o som de uma gargalhada.
Esqueci o grito que dava interiormente sempre que tocava o céu dos meus sonhos.
Esqueci-me de mim e adormeci neste silêncio que queima os mais doces pensamentos guardados em mim.
Estou vazia e ausente de mim mesma. Esqueci como se sorri.

segunda-feira, maio 16, 2005

Suspiros


Pensar que pensei que não existias...

quinta-feira, maio 12, 2005

Palco de emoções: vida nas veias

Por mim, deixava-me levar no ar fresco da noite para senti-lo penetrar pelas narinas e encher de luar toda a minha forma de existir... A ficção, a imaginação, os delírios ganham espaço e vida neste pedacinho de pecado que aqui deixo... Aguns caracterizam-me como "feliz"... Outros adormecem na sua teimosia irreverente de que a escrita exterioriza os meus momentos negros... O encarnar dos personagens que despertam em mim, fascinados por simples e inesperados estímulos vindos dos mais diversos universos, faz despoletar textos que nem eu mesma sei explicar como surgem... Um pedaço de loucura inata que insiste em transpor-se para as palavras legíveis...Esta lucidez inconsciente, são pecados ora doces, ora amargos que vestem de cor o meu pensamento... Não me importo de ser assim. Não me importo de poder sentir e viver as estações do ano nas palavras, vivas, insconstantes, na simples contagem dos minutos e que fazem de cada segundo, um momento marcado no tempo, diferente e sempre inesperado. Não me importo de ser assim. Nao me importo de chorar quando escrevo ou de sorrir, como o faço agora. Não me importo de ser assim. A meu ver, a verdadeira tragédia de uma vida é a sua rotina de emoções.

terça-feira, maio 10, 2005

Chocolate


Não é preciso baunilha, nem caramelo... Basta um chocolate e sei que isto já passa. Saboreá-lo des olhos fechados, fingindo que a vida pode ser doce e macia, derretendo na boca e enaltecendo os sentidos mais diversos... É... O Chocolate é uma arma e tem mil e uma aplicações... Vale a pena experimentar.

segunda-feira, maio 09, 2005

Será?



Foram tantas as vezes que sonhei contigo
que penso ser totalmente improvável
não existires.

domingo, maio 08, 2005

Penso que sim...

Penso que tens razão no que dizes, quando sabes me ouvir e me dás a palavra também, quando choras comigo, corres para me secar as lágrimas, me abraças ou sorris, foges de mim ou és indiferente. Penso que, nesse escuro que trazes nos olhos, escondes a luz das verdades que sentes e não tens coragem de assumir. Penso que sim. Penso também que somos iguais. Não somos a sombra um do outro. Somos, sim, a coincidência de carácter do que já fomos, somos e queremos ser. O espelho em que nos reconhecemos, é o mesmo. Penso que sim.

Parfois

Parfois je vois la vie avec les yeux d'un ange innocent qui attend tout simplement la liberté de ses rêves... Parfois, je laisse voler mes larmes sur les ailes d'un oiseau qui les rejoint aux nuages devenus noirs... Parfois, je crois que mon existence n'est plus ce poids de douleur et je me sens moins seule et abandonnée de mes désirs... Parfois, je veux m'endormir pour y retrouver ma paix et la réponse à toute cette contradiction qui envahit fréquemment mon âme... Parfois, je crois que les histoires que j'ai écoutées pendant mon enfance me feront assister à une réalité digne d'un conte et mon prince, il reviendra, souriant,gentil, capable de m'aimer et de se laisser aimer...Parfois... je me sens capable de faire rêver les gens qui m'embrassent et cultiver leurs sourires en cachant les pleurs de mon coeur vide et silencieux...Parfois, je veux croire que ma vie ne sera que cette indifférence et ce conflit d'émotions et qu'ailleurs quelqu'un voudra vraiment partager ses secrets et désirs avec moi...Parfois, je ne pense que ça et je pleure, puisque ces parfois... il ne sont que des moments lointains qui s'échappent par mes doigts, qui volent ma voix et ferment mes yeux, en disant que la vie ne saura jamais comme dans les contes de fée...La vie, elle n'est qu'un simple parfois...perdu dans le destin... et moi... je ne sais plus ce que je suis dans cet espace incertain...Je croyais qu'il suffisait tout simplement d'aimer...savoir aimer... et savoir grandir en aimant. À toi qui me lis...je te laisse mon parfois et l'espoir que tu le comprennes mieux que moi...

sexta-feira, maio 06, 2005

Sensualidade...

Dançava, sentindo a seda despir as curvas do meu corpo na camisola semi-transparente. Era eu, autêntica, semi-nua, sensual e como que gritando o teu nome no escuro da dança quase tribal que me possuía, embalada num simples Bacardi-Cola engolido a "penalti". Isto fez-me lembrar algo. A primeira bebedeira, que pouco alcool exigiu. Resultara apenas da desabituação a esse poderoso revelador de verdades. E fiquei assim dançando, com uma vontade inexplicável de entregar o meu corpo à lua e sentir o vento directamente na pele, despreocupada, desinibida, sob os olhares curiosos que, de certa forma, expressavam desejo e eu, confesso, deliciei-me e queria senti-lo cada vez mais, esse desejo reprimido, quase explosivo. Alguma mulheres de olhos desviados, mas postos em mim, denotavam nitidamente inveja por não terem coragem de libertar-se assim, sem preconceitos. E o cetim escorregava e esvoaçava. O corpo ganhava, em cada ondular da brisa, uma sensualidade singular, despido de manias de regime, de dietas, de pilulas para emagrecer, de cremes para estrias e celulite... O corpo exibia-se assim, bonzeado, macio, nu, apelando à libertação dos sentidos. Sei que faz lembrar o anúncio do "Martini baby?" e a toalha cai deixando adivinhar claramente os recantos de uma pele que sente prazer , que vibra e se contorce simplesmente por ter poros. Os sinais e marcas mais discretos, tornaram-se estrelas brilhantes apetecíveis de tocar, na noite quente e libertina, a julgar pelos olhos que me abraçavam no silêncio.
Quando acordei, estava nua, deitada na areia, com o sol me acariciando o rosto.
Ao meu lado, junto aos cabelos ruivos, entrelaçados na areia, uma rosa vermelha, marcava os traços misteriosos de um sonho que afinal talvez tivesse tocado a realidade.
O perfume da rosa fez-me vibrar e senti de novo aquele prazer quente, enaltecido, quase louco.
Caminhei para o mar que me acarinhou e partilhou comigo um momento de Amor.
Ao longe, no areal, a rosa vermelha brilhava, esperando o meu regresso, de corpo molhado, com as gotas deslizando, brincando na pele, tocando todos os mais íntimos recantos do meu corpo.
Regressei ao espaço dourado e coloquei-a no cabelo. Fechei os olhos, acariciada pelo sol, inibriada na sensualidade de toda aquela vivência. E fiquei assim, deitada, palpitando ainda desejo, entregue a uma praia quente, onde a areia deslizando entre os dedos, confidenciava-me ainda que me queria sentir e partilhar o amor comigo, mais uma vez.


terça-feira, fevereiro 08, 2005

Abraços



Hoje percebi a importância de um abraço que abraça tudo, a alma e o ego. Abraços destes, infelizmente, nunca tinha recebido antes. Recebi-os hoje e estou feliz por saber que existem.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Namorar

Penso que só assim, sentindo, se aprende que o namoro não é um momento isolado, impulso de um desejo esporádico. Duas pessoas juntas, que se amam, nunca poderão afirmar que foram infelizes e que sentiram, no dia seguinte, o vazio típico de quem olha para o lado e pensa: "Que faço eu aqui?"

Atingir o estádio da certeza de que "É bom estar aqui, junto de ti", é o reconhecimento de que fomos felizes, outra vez.

domingo, fevereiro 06, 2005

Emoções

Estou com tantas saudades que chego a sentir um nó na garganta e o peito inflamado, com o batimento acelerado, ecoando nos ouvidos. Encontro-me sozinha, diante do espelho e o reflexo de mim mesma ameaça chorar perdido, desalmado, desossado, vazio e separado do seu ego. Porque estou eu assim? Não sei. E de que tenho saudades? Não faço a menor ideia. Em cada palavra que escrevo, muito antes de ser formada no pensamento, a angústia intensifica-se. Não sou eu quem escreve. É a emoção, quase irracional. Selvagem e primitiva, sorri-me e eu fico aqui, apática, perdida numa vontade inexplicável de tudo e de nada.

domingo, janeiro 30, 2005

Saltos altos

Decidi "criar". Foi uma opção louca, atrevida e ambiciosa demais, talvez. Convicta desse desejo e com avidez monstruosa, dei por mim jogada no chão, simples, como Eva, no início do mundo, olhando o céu e pensando na minha pequenez perante a grandiosidade do espaço azul e da vida que respirava à minha volta. Escorregara no alto dos meus saltos, reclamando a sensualidade do deambular nos sapatos novos. De nada adiantava decidir ser o que não era, tentar conseguir o que não tinha. Sonhar não tem preço, eu sei, mas ia me custando uma perna partida. "Oh miúda..." Epá! Entrou pelas narinas aquele cheiro a hormonas masculinas, junto com David Hoff e pele fresca saída de um banho. Hesitei. "Abro os olhos ou fico aqui no chão, simulando desmaio?" Nem tive tempo. Puxaram-me com mãos firmes e o meu corpo , já na vertical, ficou colado ao monumento em pessoa do cavalheiro que aparecera do nada. Há minutos atrás, ousara encarnar um personagem fictício. Agora, por mim, parava o filme que estava vivendo. Dava-lhe um "pause" prolongado. Caramba! Que homem! Queria apreciar. Deleitar-me com aquela aparição. "Estás bem?" Voz de trovão suave. Sim. Masculina, mas doce. Parece contraditório? Claro... Só mesmo perante a situação é que se consegue sentir. Inexplicável. E durante este tempo, fiquei quase sem respirar. Isto porque o David Hoff atordoou-me os sentidos, não queria perder aquele perfume por nada e ele apertava-me com tanta força que sentia os seus peitorais inchados (um exagerozito é típico feminino). Aí aconteceu o ridículo. Ainda mais ridículo, eu sei. Engasguei-me. Acho que foi falta de ar mesmo. As mulheres são estranhas quando querem ou quando menos querem. Este deve ser o nosso fascínio. Bem, desatei com uma tosse sem classe alguma e acho que o salpiquei. E o mais estranho de tudo... Queria falar, pedir desculpas, fosse o que fosse e não fui capaz. Ainda bem. Se abrisse a boca, diria certamente algo que poderia não cair muito bem, como: "Queres..." ou "..."
Ai ai ai... Que vergonha... Isto de estar nos 30, tem pano para mangas.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Gu gu Da da...

Pois...Foi assim que começamos... no gatinhar lento e sensual...Tudo remeto para essa minha vertente tão humana e comum a todos, ou quase todos... Há ainda o sector dos que não descobriram que são núcleos de sensualidade... Não sei o que escrevo. É mais um deambular sem nexo... Acho que vem na sequência de algo que li algures aqui. Os homens, por vezes, são bem machistas e chauvinistas, mas um pote de charme insuperável... As palavras mexem e abalam desde o mais íntimo cantinho da alma... Bem, considerando que este é o primeiro Post do ano novo, não está correndo nada bem. Melhor parar... Hoje apetecia-me mesmo gatinhar... Fazer gu gu da da... De qualquer modo, será melhor evitar movimentos desses, afinal a tradição popular pode ter razão. Fico com gugu dada na cabeça. Antes assim.

sábado, dezembro 04, 2004

L'enfant sauvage...

É... Esta é a mais pura das verdades. Sou um poço de desejos intensos, um turbilhão sofrego de emoções e uma tempestade de sentimentos que lutam por viver todos ao mesmo tempo dentro de mim e simulam uma explosão constante, simultaneamente deliciosa e sofrida. Sou assim. Embora consciente deste risco que corro, pois a vida não é um mundo apenas meu ( felizmente), não sei mudar e tropeço em curiosos que me perguntam (in) satisfeitos (?) : És mesmo assim? Pois... De actriz não tenho nada... Sou como aquela música da Gabriela: "Eu nasci assim, eu fui sempre assim..." Quem sabe não mudarei um dia destes.


domingo, outubro 03, 2004

Nos braços de um anjo...


Esta é a música que, desde que a ouvi,

mexeu comigo e ainda mexe...

Sarah McLachlan...

Fica a letra...

E o sonho deambula nela...


Spend all your time waiting
for that second chance
For the break that will make it OK
There's always some reason
to feel not good enough
And it's hard at the end of the day
I need some distraction
or a beautiful release
Memories seep from my veins
Let me be empty
and weightless and maybe
I'll find some peace tonight

In the arms of the Angel
far away from here...
From this dark, cold hotel room,
and the endlessness that you fear
You are pulled from the wreckage
of your silent reverie
You're in the arms of the Angel;
may you find some comfort here...

So tired of the straight line,
and everywhere you turn
There's vultures and thieves at your back
The storm keeps on twisting,
you keep on building the lies
That you make up for all that you lack
It don't make no difference,
escaping one last time
It's easier to believe
In this sweet madness,
oh this glorious sadness
That brings me to my knees

In the arms of the Angel
far away from here...
From this dark, cold hotel room,
and the endlessness that you fear
You are pulled from the wreckage
of your silent reverie
In the arms of the Angel;
may you find some comfort here...


You're in the arms of the Angel;
may you find some comfort here...

sábado, outubro 02, 2004

Completa

"A Amizade é a mais bela forma de amar"- lembrou-me um dia um dos meus amigos mais queridos. É... Há que concordar com isso. Este é sem dúvida um dos sentimentos mais completos e que podemos alimentar por alguém. Horas ao telemóvel numa conversa acesa de atropelos e gargalhadas que acabam em lágrimas de tanto rir. Momentos destes fazem-nos ganhar o dia. Hoje foi um dia mais que vitorioso e feliz. Vivi-o intensamente desde o início até ao fim, com trabalho, com família e com amigos. Esqueci-me de jantar, mas enchi o coração de sorrisos e fui feliz. Estou feliz e gosto mesmo de ti. Inconscientemente ou não, cultivas, dia após dia, esse sentimento lindo de amizade, pura e inocente, que vai crescendo e voando, feliz, dentro de mim.


sexta-feira, outubro 01, 2004

Desejo na ponta dos dedos

Olhei para os meus dedos aqui sobre o teclado. Curiosamente pareceram-me bonitos e mais ágeis que o meu pensamento. É um dos mais belos dotes físicos do ser humano... Permitem acariciar, acarinhar, dar mimos e um simples deslizar pelo rosto de quem se ama, ou um mergulhar nos cabelos acabadinhos de cortar à màquina, traz aos dedos uma sensibilidade erótica única, repleta de desejo, inundada numa vontade inadiável de continuar brincando com os sentidos e arrepiar o corpo todo de imediato... Sei que gostas. Quanto a mim, confesso que adoro.


quinta-feira, setembro 30, 2004

Procuro-te...

Sabes desde quando te procuro em vão? Desde que li na minha adolescência o "Fernão Capelo Gaivota" e decidi voar até aos "penhascos mais altos" na busca da felicidade... E será que ela existe? Dizem que sim. E eu acredito que sim. É por isso que te procuro sorrindo, pois sei que estás algures nalguma esquina, sem saberes, tal como eu, que nos iremos cruzar e dar o nosso primeiro beijo apenas com um olhar. É. Admito. Sou uma romântica perdida. Nisso, somos declaradamente iguais e até na tradicional frase "não procuro compromissos", escorregamos em romantismo que parece verter directamente da alma. Está em nós. Nasceu em mim. Veio ao mundo contigo. Somos ambos fruto de amor e não sabemos viver sem ele. Sabes quantas pessoas se amam como nós? Poucas? Sim, infelizmente... Por isso temos sorte. Por isso, quero-te. Por isso, procuro-te.


quarta-feira, setembro 29, 2004

Atrevido...

Sabes o que mais gosto em ti? O facto de me surpreenderes sempre. Tens esse cheiro a sedução e mistério que me inunda os sentidos de forma irracional e um olhar que me despe por dentro, sem me julgar, mas que me aceita como sou. E por fim, atreves-te a sorrir dessa forma que só tu consegues: ousada, cúmplice, terna e simples. És atrevido. Sabes que o és e sabes que eu gosto.




sexta-feira, agosto 20, 2004

Desisto

Verifica-se uma baixa deste lado. Desisti de entender e interpretar as palavras que ouço. Por vezes, sinto que complico o que é tão simples. Um "não" é "não" e um "sim" é obviamente o oposto. Estou decidida a mudar. O mais complicado é quando essa decisão acarreta reacções de repugna quando na verdade era anteriormente tão solicitada. Devo mudar ou não? Não sei. Desisto de entender o modo mais correcto de ser e de agir. Outro dia disseram-me: "És tão ingénua e distraída, nem te apercebeste do que se passava à tua volta". Será? Quem sabe não é isso mesmo? Uma questão de ligação à terra e de deixar de olhar para o céu na esperança de que uma estrela cadente satisfaça o meu sonho perdido. Desisto. "Deixem rolar", como diz o nosso irmão do Brasil. Amanhã é outro dia. E tu que estás desse lado, desiste também...de ler este texto. Está uma porcaria, sinceramente. É melhor ir dormir. Quem sabe não tenho um sonho daqueles...

quinta-feira, agosto 19, 2004

Nua...

Estava nua e a lua brilhava sobre o meu rosto e sobre a minha alma. Há muito que não a encontrava assim desnudada, a alma, feita de sonhos que se despiam chorando caidos no chão, jogados como lixo. Na busca do teu amor impossível, refugiei-me nos braços de um outro que de forma ilusória deixou a neblina me cegar por breves instantes. Estou de novo nua e vejo o meu corpo exposto sob a lua. Não sou ninguém nesta noite escura que me abraça friamente e de forma vazia, fria, vazia, sozinha, fria. Apenas eu, o meu corpo e a lua. Estou nua e penso se não seria melhor estar fria, sem sangue correndo nas veias, despida da vida. Assim, vazia, sozinha, nua, o frio consome os meus sentimentos e gela-os, petrifica-os, mata-os. Estou nua sob a lua e não entendo porque ainda respiro se a noite procura em mim rastos de morte. Estou nua e vejo o meu corpo que balança num respirar lento e vazio, num gemido quase sumido, num suspiro que não busca nada, apenas um lamento inaudível... Estou nua sob a lua e nas sombras que deixo no chão reconheço o sorriso apagado que um dia tive. Finjo amar-te, mas engano-nos. Quero amar-te, mas não consigo. Sou um corpo vazio e sozinho, carne macia que deixa deslizar os dedos quentes de quem diz amar, uma pele ainda suave que se sente ardente quando pensa em ti e no amor que desmente a toda a hora. E continuo nua sob a lua. Ela que vê o meu corpo contorcer-se de dor e de amargura, testemunhando o desfalecimento do amor impossível que nunca teve hipótese de existir. Estou fria, imóvel, triste e sei que quando o sol nascer, a escuridão continuará em mim, gelada, inconsciente, na lápide que esboça uma foto antiga onde ainda havia sorriso e esperança. Estou nua sob a lua, enterrada numa vida de sonhos mortos. Estou nua sob a lua, eu e os meus sonhos, feitos de sombras, compostos de mantos de folhas secas e pesadas que nem o vento doce matinal consegue erguer. Estou fria, gelada, sozinha, fria, nua, vazia, fria, nua, fria e sinto medo... Sinto medo que o meu coração gele antes de poder sussurrar o meu sentimento por ti. Está frio e é noite. A lua escondeu-se atrás de uma nuvem escura carregada de tempestade. Entrego a minha voz rouca ao vento suave que anuncia o choro dos céus e aguardo o meu destino apagado. Gelei. Vejo o escuro em redor. Ceguei. Não sinto nada além de uma lágrima quente que escorrega pelo meu rosto pálido, triste e frio e morre no chão escuro e frio, caindo na eternidade de um sentimento isento de vida. Está frio e é noite... Visualizo a camisola azul de cetim que adivinha as curvas de um corpo com vida. A lua ressurgiu no céu. Fecho a porta da varanda e entro no quarto. Deito-me na cama e adormeço.


sexta-feira, março 12, 2004

Perfume


Realmente o poder do odor exerce efeitos magníficos na nossa mente e, quando menos esperamos, estamos correndo atrás de um aroma familiar, viajando no tempo ou até se perdendo pelas vias deliciosas da imaginação. Se citasse aqui o fabuloso livro de Patrick Suskind, desviar-me-ia do tema.
O que aconteceu foi simples. Foi o desencadear de uma sensação de seda apetecível semelhante às anunciadas nos slogans mais banais de shampoos ("Seja você também um cabelo Pantene"). Não foi com Pantene que o lavei, mas com o usual kerastase que mima os meus caracois desde há muito ruivos. E o resultado final deixou-me radiante. Olhei-me no espelho e gostei. Incrível. A auto-crítica foi positiva, embora moderada. Inconscientemente, ao ler deitada na cama, mexia e remexia nos caracois macios e o perfume foi me envolvendo. Seria da lua? Seria do quarto vazio? Não sei... Fui à varanda. O vento assobiava no prédio assombrado em frente, em construção abandonada. A minha pequenina canina aconchegada na sua alcofa vermelha ergueu a cabeça e pediu mimos. Acarinhei-a e uma madeixa de cabelo encaracolada caiu-lhe sobre o focinho. Pensei que ela iria espirrar ou mexer-se e ri-me antecipadamente. Tal não aconteceu. O seu narizito pequenino mexia-se em movimentos compassados. Sorri para a pequenina, minha fiel companheira. Também ela sentiu esse perfume que parecia sair de mim e era agradável, confesso. Relembrei-me da minha afilhada que com menos de um ano, gatinhando, trepava por mim fora e ficava olhando o meu cabelo, mexendo nos meus caracóis, sem puxá-los (como fazem as cianças daquela idade), o que era deveras estranho. Devo ter uma arma nas mãos que no fundo nem me pertence, mas sim ao tempo. Uma arma que se desgasta com o passar dos anos. O certo é que eu, hoje, senti o poder desse deslizar encaracolado e perfumado que me cobria os ombros e me perturbava os sentidos mais lúcidos. O erotismo despoletou em mim com a vinda dos trinta e este processo é irreversível. Na verdade, até gosto dele, mas acarreta consequências, por vezes, menos positivas.
Acabei me lembrando de ti e do primeiro beijo que me deste. Afastando uma madeixa encaracolada, debruçado sobre meu rosto, com um sorriso tão lindo quanto a lua no céu cintilante e os teus olhos mais verdes do que nunca, emotivos, perguntaste delicadamente: "Posso?" Como uma menina assustada, inocente, ingénua e tímida, respondi num sussurro: "Podes".
E os nossos lábios tocaram-se suavemente, como uma gota de orvalho deslizando numa pétala de rosa e eu vivi o beijo mais lindo que recebi na vida. Tinhas esse perfume... Perfume de charme, de sensualidade, de homem maduro e de menino perdido, de cavalheiro delicado. Nos lábios tinhas o aroma e o gosto do desejo. A tua mão deslizou pelos meus cabelos e eu percebi então: o quadro era perfeito demais para durar além de um momento. Senti nesse beijo o medo de estar vivendo um sonho que pouco duraria e pude confirmá-lo, mais tarde, com um aperto no peito. Mais uma vez, esse perfume fora levado pelo vento. Ficara apenas a lembrança e o roçar suave de uns lábios doces que me falaram de amor no silêncio e me fizeram acreditar que a Felicidade, por vezes, existe. Julgo que é esse recordar de perfume que ficou em mim, nos meus caracois ruivos e que me deixam assim, ansiosa, tentada a perdoar-te e pedir-te perdão e dizer que te amo como nunca amei ninguém na vida.

quinta-feira, março 04, 2004

Estacionamento "auxiliado"

Estacionar na nossa cidade é frequentemente um problema que nos deixa com os cabelos em pé ou com o cronómetro ligado, pretendendo controlar os gastos exacerbados num simples “parking” comercial. Este é o luxo de quem se habitua a levar o carro até à porta do local de trabalho ou até ao seu ponto de visita, argumentando a escassez do tempo para realizar toda a lista “urgente” de tarefas agendadas para esse dia, essa hora e esse preciso momento.
Poderemos igualmente optar pelos estacionamentos acolhidos pela maresia, na Avenida das Comunidades Madeirenses, onde seremos recebidos por um “auxiliar” que nos ajuda não só a suportar o tempo de espera por uma provável vaga, como também nos sorri abertamente, acalmando a agonia e a ansiedade crescentes, suscitadas pela situação.
No entanto, é impensável não simpatizar com alguns destes “profissionais” sorridentes que, diante de um teimoso “ Não poderei esperar...” (proferido num tom frio e quase desprezível) oferecem um sorriso delicado. Revelando uma educação exemplar, respondem: “Que pena, Sra. Para a próxima terá mais sorte”. Se, porventura, insistem, fazem-no subtilmente e sem demasia.
Esta é uma situação que já vivi na pele muitas e muitas vezes. Não consigo deixar de simpatizar com aqueles rostos cansados que disputam o território destinado aos estacionamentos. Dou-lhes sempre uma moeda. Não me refiro a quantias elevadas. Neste gesto, não visto o tradicional receio de que me danifiquem a viatura, mas pretendo agradecer o sorriso oferecido e a delicadeza das palavras.
Pelos sorrisos e afagos psicológicos oferecidos durante a espera desesperada nesses parques, os referidos “auxiliares”, portadores das características mencionadas, mereciam mais que o licenciamento proposto pelo Presidente da Câmara de Lisboa: uma “medalha”, talvez.
Devemos relembrar que, muitas vezes, são eles os alvos dos desabafos pouco civilizados dos condutores sempre apressados e usualmente irritadiços. Independentemente da legalização ou não da actividade de arrumador de carros, qualquer ser humano merece ser respeitado. Pensem bem: custa tão pouco retribuir um sorriso e o papel de “vítima assustada” parece estar já tão fora de moda nestes casos.

(Publicado no "Diário de Notícias" de 28 de Fevereiro de 2004)

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Sambando contra o stress...


É tempo de folia. É tempo de Carnaval. São dias enraizados numa tradição que remonta à Antiguidade e cuja origem ninguém consegue designar ao certo. Se alguns historiadores relacionam esta época com os cultos agrários, outros avançam no tempo e aliam-na às comemorações egípcias ou ainda ao culto do Deus Dionísio, um ritual da Grécia Antiga. O próprio termo revela, de igual modo, alguma imprecisão, evocando, como seria de esperar, a língua latina. Surge assim, associado à expressão “carrum novalis” (carro naval), remetendo-nos de imediato para a imagem dos tão criativos e espantosos carros alegóricos capazes de suportar o entusiasmo dos seus “passageiros”, com a energia à flor da pele. Poderá também reconhecer a sua origem na expressão latina “carnem levare”, evoluída para “Carne, vale” (“adeus carne!”), que designava a quarta-feira de cinzas e anunciava a supressão da carne devido à Quaresma.
O certo é que a alegria que parece jorrar nestes dias, abusando nos conceitos de excentricidade e de desinibição, não suscita qualquer tipo de hesitação quanto ao esforço e empenho pessoais aplicados na elaboração de uma máscara original e criativa. O apelo nasce quase de forma espontânea e torna-se contagiante o simples “querer” participar neste samba que combate o stress e faz esquecer, por umas boas horas, o quotidiano e as rotinas malucas que esvaziam as carteiras, tais como, as despesas mensais. Estes dias não são numerados nem medidos. Aproximamo-nos do final do mês. Ninguém deu por isso. Ainda bem.
Os limites perdem-se (felizmente) e a coragem sai à rua vestida de “Trapalhão”, sambando contra os males da sociedade, numa crítica voraz, acesa, divertida, mas sobretudo realista. É no desfile “atrapalhado” que se centram as atenções dos madeirenses e turistas, cada vez mais numerosos, nesta época. O público aplaude os (des)“mascarados” e os mais destemidos entregam o corpo aos ritmos quentes de origem africana. Assim, dando uns pézinhos de samba, quebram a timidez e a passividade da assistência. Os “trapalhões” fazem as delícias das crianças e enchem de coragem os foliões que lavam a alma secretamente atrás de um “disfarce”, ousando cantar aos “deuses governamentais”: Ei, você aí, me dê um dinheiro aí, me dê um dinheiro aí”... Sambem. Revelem-se. Propaguem a epidemia. Quem sabe alguém influente nos ouve e lê os pensamentos exibidos atrás da máscara? Não custa tentar. É Carnaval.

(publicado no DN de 25 Fevereiro 2004)