- Faz como eu.... Escreve e desabafa para o papel, os sentimentos que nunca tiveste e as histórias que nunca viveste. - Mas pareces tu, Ana... -Achas que sim? Partilhas a teoria de que também encontrei uma criança abandonada e adoptei-a. Achas que ganhei um Diário Íntimo de alguém que morreu? Achas que devoro chocolate? Catarina calou-se. Sabia bem que eu era alérgica a chocolate e que estava longe de ser mãe. - Mas... O seu pensamento foi cortado pelo amontoado visível de ideias que explodiam em si. Calou-se novamente. Dei-lhe um abraço apertado. - Minha pequenina, estou bem. Catarina, as palavras estão vivas em mim. Alimento-me delas e vivo-as intensamente. Não tentes encontrar explicação para o que escrevo. Quero que sintas e se duvidares... é sinal que consegui o que queria: escrever de forma tão real, capaz de te confundir, despertando questões em ti, vivendo o meu texto. Esse, Catarina, é o verdadeiro objectivo de quem escreve...Fazer com que as suas palavras sejam engolidas por inteiro, que os olhos saltem de linha, ansiosos, sofregos, isolando-se do exterior, mesmo que passe junto de ti um autocarro, um carro de bombeiros, um grupo de turistas barulhentos e tu permaneças sentada, lendo, num mundo mágico que só tu conheces, agarrada ao texto que vais desvendando com curiosidade. Nem mesmo nas pessoas que escrevem o seu diário, o decalque existe, Catarina. De uma forma ou de outra, a imaginação acrescenta pedaços de história que nunca aconteceram. O prazer da escrita reside nisso. Maria aproximou-se com um sorriso. -Como se comportou ela, Ana? -Lindamente como sempre. Está crescendo, a tua menina. Catarina recebeu a mãe com um abraço e olhou directamente para mim, desafiando-me. - Mas os sonhos, Ana, podem acontecer na vida real. Vais negar isso também? Sorri. A miúda sabia realmente como me deixar sem argumentos. Não argumentei. Não podia fazê-lo. Por vários motivos. |
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