
sexta-feira, março 20, 2009
Vazio

segunda-feira, março 02, 2009
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
Esperança

sábado, dezembro 29, 2007
Entrar no ano novo a sorrir...
Na sala, a algazarra de sempre. Uns falando mais alto que os outros. Alguns cantarolando. São vozes de crianças e de adultos, graves, agudas, esganiçadas e, para completar o quadro entusiástico, uma aventureira no piano, adivinhando dedo a dedo as notas de uma canção tradicional de Natal.
Ontem, saí de casa com um sorriso brilhante, rasgando o meu rosto, mas no regresso, trazia apenas uma angústia sufocante no peito. Momentos de reflexão como estes, fazem-nos partir de uma atitude passiva a uma acção mais directa, pequena ou grande (pouco importa), incidindo sobre os que mais precisam de viver o Natal respirando alegria.
Pelo caminho, cruzei com uma idosa pedindo esmola numa rua comercial do Funchal. Pouco depois, enquanto conduzia, vi um mendigo jogado sobre um passeio e um transeunte olhando-o com desprezo e repugna, fazendo um desvio enorme para não se sentir invadido por "bactérias" indesejáveis. Vi também uma família atravessando a estrada na direcção do Hospital, levando sacos de hipermercado. Relembrei-me da solidão natalícia acentuada nos hospitais, onde o frio das paredes e o cheiro a desinfectantes adivinhando soro e seringas tornam-se quase irrespiráveis, por mais esforço e sorrisos que esbocem as enfermeiras e os profissionais de saúde.
O Mundo é assim, desigual, tal como a vida. Somos todos tão diferentes, mas, no fundo, tão iguais e transparentes. A superficialidade e frieza calculistas são máscaras que se julgam modernas e dignas essencialmente de pessoas que ocupam lugares de chefia. Mera aparência. Por dentro, todos temos sentimentos, ou não passaríamos de meros "fósseis andantes" no estádio de "mortos-vivos". Não conheço nenhum "Frankenstein".
O meu sonho prossegue, mantendo os pés bem presos à terra que me viu nascer e crescer. Modestamente, nos gestos diários, continuo tentando levar o aroma e o calor do peru e das iguarias natalícias, da festa e das risadas, ao coração daqueles que desconhecem o valor do Natal.
Este ano, o Pai Natal falou comigo. Após longo diálogo fictício, vi-o brincar com a sua longa barba branca como a neve e sorrir, confiante e cúmplice. Nesse sorriso encontrei a resposta que buscava. Todos sabemos que o rumo do Novo Ano está nas nossas mãos. Se, todos juntos, soubermos cultivar autenticidade em torno de nós, pensando um pouco nos outros ao longo de todos os dias do ano, poderemos então conquistar os tais idílicos momentos felizes nas nossas vivências mais simples.
Sei que juntos poderemos fazer muito por um mundo melhor, começando por um sorriso, um gesto ou uma palavra de amor dirigida a um desconhecido que se cruza connosco numa passadeira, em plena avenida, com um brilho vazio e triste no olhar e um sorriso apagado. Não tenhamos receio de ajudá-lo a atravessar a rua, apenas porque o seu cheiro é diferente do nosso. Atravessemos nós também essa rua que pertence a todos e entremos no Ano Novo, com o coração a sorrir, conscientes que fizemos e faremos algo por um mundo repleto de dias de Natal.
Continua a cheirar a peru na cozinha, mas eu perdi a fome e fui para a sala, emocionada, abraçar os meus pais.
A viagem do Pai do Natal...

domingo, novembro 25, 2007
Viagem de letras e sonhos
E lá vamos nós rumo ao sonho de qualquer adolescente: conhecer outros países, outras culturas, viajar... domingo, setembro 16, 2007
Rasgos de sangue

quarta-feira, setembro 05, 2007
Banco de areia
HOJE...perdi um dia de sorrisos de vida;
perdi um rio de lágrima sofrida;
perdi um dia de confiança garantida;
perdi uma paixão muito sentida;
perdi a palavra de amor sempre recebida;
perdi a alegria da alma criativa;
perdi o sol de timidez esbatida;
perdi a febre do sangue, comprometida:
perdi o tempo na pulsação atrevida.
HOJE...
ganhei alguma da auto-estima já esquecida;
ganhei a consciência do teatro que se diz mundano;
ganhei uma maturidade envaidecida;
ganhei a cura pela experiência vivida;ganhei a honra na dignidade defendida;
ganhei um dia de intensa ferida, já esquecida.
HOJE...
Embati num banco de areia. Afundei.
Tudo isto perdi e ganhei.
Ficaram estrias profundas no coração,magro de decepção e vazio de solidão.
Foi declarado o meu naufrágio de sonhos.
Nem a melhor marca de sedativos
obteria esta intensidade de dicotomias.
Deveria haver o seu genérico à venda nas Farmácias.
(Resultados garantidos.)
sábado, agosto 25, 2007
Mal-me-quer, bem-me-quer, muito? pouco? ou nada?
Aproximou-se, tirando os óculos de sol lentamente do rosto. Li o seu pensamento explícito. Receei que também o meu fosse assim tão evidente. Trazia uma sede de desejo escrita nos olhos e logo que tocou no meu ombro, senti toda uma avalanche de fantasias desnudar-se, sem timidez alguma. Agarrou-me pela cintura e percebi que não havia modo de fugir àquele chamamento quase animalesco, e estranhamento tão doce. Não consegui olhá-lo nos olhos. O seu coração saltava do peito, batendo em sentido contrário ao meu. Os olhares de ciúme, curiosidade ou até de crítica de quem passava, por vezes, empurrando-nos, mergulhavam como bombas sobre nós, tentando alvejar o prazer físico, quase mágico, ali exposto. O calor dos nosso corpos fundia-se ali mesmo, publicamente, louco, insaciável e poderoso. Senti que me observava da forma mais indiscreta, com os olhos colados no meu decote, acariciando a minha pele, presa ao seu corpo como um iman. Incomodada, senti um prazer louco, intenso, ao ver o quanto o meu bronzeado lhe agradava. Estava colado a mim. Diria eu, que, naquele momento, era eu o único mundo que ele via. Iludo-me? Muito provavelmente "talvez". A vida tem destes enigmas, felizmente.quarta-feira, agosto 22, 2007
Cetim azul

domingo, agosto 19, 2007
XÔ!!!
quarta-feira, junho 27, 2007
Anjo
Deparo-me com uma paixão eterna pela vida, por mais barreiras que encontre tapando o sol que, todos os dias, me envia um sorriso maroto, num "flirt" constante. As persianas do optimismo não se fecham nunca por completo.
segunda-feira, junho 18, 2007
Carlota
domingo, junho 17, 2007
Sentimentos
sábado, junho 16, 2007
Juste un petit problème...
Ops!
Não sei bem como essa foto da direita surgiu na minha máquina. Pestinhas. Agora reclamem...
sexta-feira, junho 08, 2007
Mais um passo.
Hoje cheguei mais cedo que o normal. Usualmente, sou das primeiras a lá chegar, mas hoje, por ser um dia especial, cheguei ainda mais cedo. A Joaninha fazia anos e preparei-lhe algumas surpresas. A cumplicidade dos seus colegas e amigos de turma era imensurável. Às escondidas levei uma torta recheada com creme de morangos e coberta de chantilly. Passados alguns segundos após a minha entrada "clandestina", ouvi passos apressados no corredor e sussurros. Eram algumas amigas da Joaninha que vinham correndo, escondendo-se dos funcionários, fugindo às normas. A ansiedade delas era tamanha. Confesso que a minha também. O coração parecia saltar-me do peito. Entraram na sala e logo foram chegando outros, sussurrando, correndo para a sala e escondendo-se, deixando-me numa situação confituosa. Uma parte de mim sorria abertamente, enquanto que a outra, estava deveras aflita, desesperada, perante a quebra das regras estabelecidas. Susaninha olhou para mim e disse: "Parabéns, professora." Seguiu-se um daqueles abraços que mima a alma por uma eternidade. Olhei para os meus alunos e o pensamento escapou-se na mais pura honestidade das palavras: "Não me lembrava..." Realmente, naquele preciso momento ao vê-los, só pensava na chegada da Joaninha e na surpresa preparada. Não me lembrava que também eu fazia anos. Ontem, andei horas e horas procurando e pensando no que haveria de oferecer à Joaninha. Comprei-lhe um livro do Nicholas Sparks e um kit do Boticário. Queria ter oferecido prendas a todos. Os miúdos valem tudo. São como filhos. Crescem rápido. Aos meus olhos serão sempre bébés. O irmão da Joaninha também apareceu e ofereceu-se para me ajudar. Chama-se Cristiano e tem um coração do tamanho do Universo. Não ficou connosco na aula da irmã, pois frequenta outro ano. sexta-feira, março 09, 2007
Je suis la femme...
Au silence et à la peur...
Face aux violées et aux violences,
Aux préjuges, aux prédateurs...
Face au jour qui se lève
Et prépare ses mauvais coups...
J'ai trop de feu et de sève
Pour ne pas vouloir tenir debout.
Je suis la femme,
je suis la terre.
Fertile et fière.
Je suis la flamme et l'océan...
Je suis le ventre,
je suis la mère.
la source claire de la vie,
depuis la nuit des temps.
Face au siècle qui passe,
Face a l'ombre qui m'attend,
À l'injustice rapace
Qui plane au dessus d'un enfant...
Je suis prête à me battre
Au delà de la rumeur,
à déplacer les montagnes,
à défier le mal et le malheur...
Je suis la femme,
je suis la terre,
Fertile et fière...
Je suis la flamme et l'océan.
Je suis le ventre,
je suis la mère,
la source claire de la vie
depuis la nuit des temps.
Donner, me donner, tout donner
Du rire aux larmes
M'offrir, et souffrir et pardonner
Me brûler de passion
Jusqu'à toucher le fond
Jusqu'à mourir d'aimer
Je suis la femme,
je suis la terre,
Fertile et fière...
Je suis la flamme et l'océan...
Je suis la chair où tout commence,
la différence...
Je suis l'amour contre la mort.
Je suis le rempart de l'enfance...
C'est pour que vive, la vie,
Que mon cœur bat encore...
Que mon coeur bat encore... "
M. Fugain / C. Lemesle
domingo, fevereiro 11, 2007
Tellement beau...
Soufflent les nuages de ma vie
Tournent les mirages et le vent ce soir
Quelques pages d’un songe de fille brillent
sur la toile comme un rêve d’enfant
Tellement Beau,
la vie m’a ouvert les bras comme si
comme si un ange était là vous ici,
vous êtes en bas ce qui brille de là-haut
mon courage, mon sourire, toute ma vie
Tellement Beau
Mourir dans le sable de l’ennuiJ’ai chanté dans le noir si fort ce soir
Les formules magiques quand je chante
Les larmes de mes rêves d’enfant
Tellement Beau,
la vie m’a ouvert les bras comme si
comme si un ange était là vous ici,
vous êtes en bas ce qui brille de là-haut
mon courage, mon sourire toute ma vie
ce que j’aime,quand je crie
Tellement Beau …
Tellement Beau …
Et qu’importe les rires et les efforts
quand je chante je fais brûler mon âme
tout en haut sur les toits et le ciel
Tout en haut
Tout en haut
Qui brille là-haut
mon courage, mon sourire,
toute ma vie
Tellement Beau,
Comme si un ange était là ……vous ici
Qui colle à ma peau
mon courage, mon sourire, toute ma vie
Oh que j’aime,quand je crie
Tellement Beau
Tu as rempli de joie toute ma vie !sábado, fevereiro 03, 2007
Carta a um amigo

(...) Para massacrar o meu coração, o início do ano começou com a perda da minha "menina", há 10 anos existente na minha vida: uma cadelinha que parece ter vivido comigo a vida inteira. Presenciou todas as minhas alegrias e tristezas e estava sempre ao meu lado. Chorava quando eu chorava, brincava comigo, sempre bem disposta e alegre, sempre junto de mim. Nunca adormecia sem que eu a abafasse com o seu cobertor, lhe desse palmadinhas no rabinho para adormecer, com a cabeça sobre a almofada de bébé ou peluche, deitada na alcofa junto à janela do meu quarto. Foi assim que ela partiu deste nosso mundo, nessa posição...com o seu peluche...Quando ela estava doente ou tinha pesadelos, tinha de ser acordada com cuidado e lá estava eu, junto dela, acalmando ou sendo enfermeira. Falava muito com ela e se que muito do que lhe dizia ela percebia. Cumplicidade por mim nunca antes experimentada com um animal de estimação. Tinha o cesto dos seus brinquedos, peluches, o tapete da Disney, as suas alcofas, e colchões e cobertores anti-alergicos, os seus recipientes para comer todos na moda, produtos de higiene dignos dela e bebia água mineral apenas e comida especial para dieta renal. Tinha tudo o que eu lhe podia dar e por vezes até nem podia, mas tinha de dar. A família toda sempre lhe deu brinquedos. Lembro-me que em bébé, recebeu do meu irmao um osso maior que ela...e mesmo assim, lá ia ela, arrastando-o por todo o lado, fazendo-nos rir... Sempre leva-a às consultas de acompanhamento para controlar a sua saúde e ela, sempre carinhosa, diante do seu médico abanava a sua cauda, mesmo quando estava doentinha. Nunca mordeu ninguém. A casota dela foi pintada por mim com desenhos de pegadas e cores bem vivas. E ela adorava tudo isso...Tudo isso ela agradecia, porque aprendeu a deleitar-se com estes mimos e este conforto, apesar disso não ser tudo ou não ser mesmo nada diante do amor que tinha por ela e ela por mim. Antigamente riam-se desta ligação entre os humanos e os animais...Hoje respeitam-se, pois quase todos nós já perdemos um animal que amavamos mesmo e sabemos o quanto doi.Tinha nome de pessoa, porque era para mim uma pessoa. Era a Janette. Uma rafeirinha que surgiu na minha vida num período em que me sentia muito só. Lembro-me do dia em que a vi pela primeira vez e passou a noite chorando com saudades da mãe, acabando por dormir, ao lado da minha cama, com a minha mão a acarinhá-la. Partiu, de repente, quase nos meus braços. Teve um AVC, cujo pico foi mesmo nas minhas mãos. Com os cuidados médicos e no conforto da sua alcofa, conseguiu sobreviver quase 24 horas. Mesmo durante esse pequeno período de dramatismo profundo, soube comunicar comigo, chamando por mim e pelo meus mimos... que agora parecem-me tão poucos... O sucedido caiu como uma bomba no meu peito. Veio alterar tudo. Veio alterar a minha rotina. O vazio da sua ausência ficou marcado para sempre.Acordei com esta vontade.
Vontade de ter um amigo por perto.
terça-feira, dezembro 12, 2006
Sinto-te.

segunda-feira, dezembro 11, 2006
Gatinho!
sábado, dezembro 09, 2006
Almas gêmeas.
Estava visitando o Blog de Edson Marques e deparei-me com esse texto, como sempre intenso e sublinhado por um tempero de humor único, embriagante, um deambular que só ele consegue tecer. sexta-feira, dezembro 08, 2006
segunda-feira, setembro 04, 2006
Bolachas de água e sal

Chamava-se "Nina". Pelo menos entendi de apelidá-la dessa forma, assim que a vi. Era linda. Sempre pontual, aparecia no beiral da varanda onde se ouvia o alvoroço da criançada na piscina. E ficava ali olhando para nós, com ar faminto e agradecida. Comia duas ou três bolachas de água e sal e saia feliz, esvoaçando sobre a confusão entusiástica, lá em baixo, onde os corpos mais que bronzeados se refrescavam.
segunda-feira, junho 26, 2006
Reflexos

- Tens a certeza que não estás acrescentando nada ao guião?
Susana meteu-lhe a mão sobre os ombros.
- Nadinha. Estou simplesmente sentindo o texto.
Cristina permaneceu na dúvida. A emoção da amiga parecia tão real que até lhe dera um calafrio. Susana ficou no relvado, embriagada no texto que decorara. Cristina afastou-se. Continuava visivelmente apreensiva. Sentia o ciúme e a raiva, até nos gestos minúsculos de Susana, recortados pela sombra das árvores já distantes...
Deslizou os dedos suavemente pela água morna da lagoa, murmurando:"Isto é teatro puro, nada mais. Susana é uma actriz... Está apenas representando."
Era assustadoramente parecida comigo, em tudo e em nada. A dança com os dedos na água calma da lagoa, acelerou, esboçando círculos, numa valsa perdida. Senti a indefinição do contorno dos meus traços, presa na sua imagem. Ainda consegui espreitá-la, na confusão das águas turvas, endireitando os cabelos louros, com ar pseudo-altivo que não escondia a ninguém a humildade, desenhada, exposta no rosto, ligeiramente perturbado.
Afastou-se da lagoa e eu fiquei ali, escondida no escuro do lodo sedentário, esperando pelo dia seguinte, presa no medo de não voltar a ver o meu reflexo.
sábado, março 18, 2006
Éternité...

Ça fait longtemps que je n'écris ni une ligne sur ce petit coin de mon coeur ni un tout petit mot... Ça fait longtemps que j'ai perdu les rêves et l' espoir d'être ce quelqu'un que j'ai toujours fait semblant d'être... Ça fait longtemps que je me suis perdue dans l'espace inconnu de mon âme, comme un fantôme qui parcourt les couloirs de son chemin vivant... Pour le moment, je ne sais que ça fait longtemps... Ça fait longtemps que j'ai fermé les yeux à la vie et que je me suis transformée dans une ombre silencieuse, angoissée à cause d'un cri de vie, étouffé dans ma mémoire, morte, devant toi. Ça fait vraiment longtemps... |
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Espelho do tempo

A vida é isto mesmo. É feita de traços que se descobrem de forma ilógica aparentemente e que escondem o ego acorrentado de um personagem visualizado algures, encarnado agora, fruto de carências afectivas transpostas num espelho quebrado em pedaços... A vida é isto mesmo. É um tempo (in) completo onde ficamos pisando os pedaços de um espelho que deixa morrer uma imagem sentida e impossível de ser colorida pelos olhos, sem medo de deixar sangrar as feridas que se rasgam na pele, desenhando cicatrizes, com a certeza de que as farpas de vidro perdidas, apenas ali ficaram, abandonadas num espaço que nunca existiu. A vida é isto mesmo: algo que não se compreende, apesar da sua transparência sempre evidente. É sangue, céu, mar, guerra, verde, azul, núvem, árvore, flor, sorrisos, lágrimas, dor, enigma, espelho que se vê, toca, sente e até cheira, de olhos fechados, mesmo quando desfeito em pedaços. A vida é isto mesmo, por isso dá tanto gozo vivê-la. |
sábado, janeiro 28, 2006
Imagina.
- Faz como eu.... Escreve e desabafa para o papel, os sentimentos que nunca tiveste e as histórias que nunca viveste. - Mas pareces tu, Ana... -Achas que sim? Partilhas a teoria de que também encontrei uma criança abandonada e adoptei-a. Achas que ganhei um Diário Íntimo de alguém que morreu? Achas que devoro chocolate? Catarina calou-se. Sabia bem que eu era alérgica a chocolate e que estava longe de ser mãe. - Mas... O seu pensamento foi cortado pelo amontoado visível de ideias que explodiam em si. Calou-se novamente. Dei-lhe um abraço apertado. - Minha pequenina, estou bem. Catarina, as palavras estão vivas em mim. Alimento-me delas e vivo-as intensamente. Não tentes encontrar explicação para o que escrevo. Quero que sintas e se duvidares... é sinal que consegui o que queria: escrever de forma tão real, capaz de te confundir, despertando questões em ti, vivendo o meu texto. Esse, Catarina, é o verdadeiro objectivo de quem escreve...Fazer com que as suas palavras sejam engolidas por inteiro, que os olhos saltem de linha, ansiosos, sofregos, isolando-se do exterior, mesmo que passe junto de ti um autocarro, um carro de bombeiros, um grupo de turistas barulhentos e tu permaneças sentada, lendo, num mundo mágico que só tu conheces, agarrada ao texto que vais desvendando com curiosidade. Nem mesmo nas pessoas que escrevem o seu diário, o decalque existe, Catarina. De uma forma ou de outra, a imaginação acrescenta pedaços de história que nunca aconteceram. O prazer da escrita reside nisso. Maria aproximou-se com um sorriso. -Como se comportou ela, Ana? -Lindamente como sempre. Está crescendo, a tua menina. Catarina recebeu a mãe com um abraço e olhou directamente para mim, desafiando-me. - Mas os sonhos, Ana, podem acontecer na vida real. Vais negar isso também? Sorri. A miúda sabia realmente como me deixar sem argumentos. Não argumentei. Não podia fazê-lo. Por vários motivos. |





